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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Cinzas caindo no teclado e sendo trucidadas pela velocidade dos dedos em digitação

Tenho sonhado todas as noites.

Isso inaugura alguma coisa em minha vida, afinal, eu nunca fui de sonhar. Sempre dormi como pedra e acordava, eventualmente, na mesma posição em que havia deitado. Estou sonhando muito, coisas distintas, com um costura inviável, mas verossímil. Tudo soa verossímil num sonho. A morte de alguém, você num estacionamento de madrugada, outro país, objetos esquecidos, os parentes falando com alguma doçura diferente de como falam hoje, agora. Tudo é possível. Mas,

eu havia aprendido - se é que posso escrever assim - eu havia aprendido que o sonho é o lugar do não-vingado. Que os sonhos são jogos do inconsciente que, por não ter acontecido, infla o rol de imagens e faz com que todas possam bailar - livres e desejantes - em sonho. O sonho é a operação do desrecalque, o sonho tira as imagens (desejos) do lacre e permite que, ao menos em sonho (em imagem [em desejo]) se possa brincar de ser aquilo que não se pode ser.

Por que foi que eu deixei de ser alguém que meu corpo deseja ser? O que está acontecendo que me faz sonhar todas as noites, sonhos longos, com muitos personagens, com um roteiro esquizofrênico carregado de espaços e tempos completamente surreais? Inventados? Complexos e sedutores?

Eu estou casado.

Daqui a alguns dias se completam quatro meses que divido minha casa com outra pessoa. Divido as contas, o lavar as roupas, divido os ânimos e desânimos, divido os receios os futuros próximos e os distantes. Faço planejamento, digo que posso, que não posso, ouso um gesto inédito, repito um gesto cujo resultado causado eu já sei. Surpreendo-me, irrito-me, morro de ciúmes, encontro desrespeito onde não tem, não encontro onde talvez tivesse. Que complexo é amar assim tão junto.


Tento me lembrar dos primeiros arrepios. E eles ainda estão presentes. Sei deles e eles nos (me) frequentam. Mas como é difícil amanhecer desacumulado do ontem. Como é difícil viver o hoje munido apenas do que temos (tenho), do que tememos (temo).

Não é um relato desesperançoso. É, como eu digo aos amigos e amigas, é minha terapia, minha conversa comigo mesmo (cinzas caindo no teclado e sendo trucidadas pela velocidade dos dedos em digitação = terapia?). Jogos de palavras, desobstrução, eu escrevo como quem tenta reviver um coração que se esqueceu de bater por alguns minutos (o meu). Eu amo, mas estou tão perdido (tentando negociar o eu e o outro). Eu não sei se eu sou bom nisso e não quero que se aproveitem (de mim).

Esquizoanálise

Adicionei esta palavra ao dicionário: esquizoanálise.


Não sei bem o que estou querendo dizer, mas posso, mesmo assim, especular algumas tentativas sobre a coisa. Eu queria dizer sobre o desejo. Sobre como o meu desejo anuncia uma coisa e sobre como o desejo do outro anuncia outra, por vezes, outra coisa, outro desejo, uma diferença (ou duas, três...). Se para mim é cada vez mais importante vingar aquilo que desejo, estando em casamento - em relação - chega-se a um momento em que não, o que desejo não é propriamente um caminho dado, um tiro certo, uma definição. Digo para mim mesmo: é preciso ceder, negociar, acordar, fazer acordos, negociar: é preciso editar os desejos.

E então acordo rendido por sonhos que nada mais são os meus desejos gozando da minha cara e me dizendo: viste, não comeste a paçoca e, em sonho, te fizemos morrer em overdose de paçoquita. Acordo, então, quase sempre muito mal humorado, pois sei - a cada manhã - que controle eu não tenho. Que eu não posso controlar o incontrolável.

Então mudo de papel, troco a posição: eu sou você agora. E penso, com cuidado, as coisas todas que devem se mover em seu íntimo, nessa imensidão que é o corpo (do outro). Ora, se eu desejo o abrupto que me assalta, por que seria tão diferente com você? Você nada me diz (fala palavras que já não nos ajudam a compreender). Você também, assim como eu, você também sonha e fala durante a noite, entrega-me vislumbres incompletos de alguma coisa que quis nascer e nasce - em sonho - para morrer, massacrada pela sobriedade da vida cotidiana.

Se eu desejo, você também deseja. O que varia, entre um e outro, entre você e eu, é o que se deseja: a cor, o tamanho, a qualidade de movimento, aquilo que em nós - a coisa desejada - causa.

Se somos tão distintos, que tipo de questão pode haver? Questão honesta, questão sincera, incapaz de ser passada para trás. Eu preciso me importar - não com o seu desejo - mas com a sua autonomia. Eu preciso ultrapassar os dramas do matrimônio? Eu preciso o quê?

Psicanálise. Disseram-me noutro dia. Ainda mais agora, que você está casado.

Ainda não. Não tenho renda para isso (é a minha primeira desculpa), mas a real, a única - a explicação possível - é que não me interesso pela doença que almejam lançar sobre o que desejo. O que estou vivendo - em vida e agora, mais que antes, em sonho - é só essa imensidão de reendereçamentos, essas mudanças de curso. Se antes eu tinha condição de desejar e fazer o que quisesse com meus desejos, agora não: eu preciso colocá-los à mesa e fatiar tudo, dissecar, não posso vingá-los.

Crio em mim um reino febril de imagens presas em sonhos. Nenhum cigarro resolve. Nem sequer embriaguez. Você fica triste e eu também. A gente é muito jovem para dar conta da máquina desejante que somos sem saber que somos.

Amanhã, eu sigo entendendo e desentendendo tudo isso. Falta pintar o teto da sala. Foi esse o nosso acordo.

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