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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Talvez eu cansaço

Talvez eu tenha cansado de escrever
Poesia. Talvez tenha eu escrito demais
Tantas linhas, que perdi o fio da meada
Perdi os motivos, as intuições primeiras
Eu perdi o início.

E então vaguei perdido em meio
Ao meio. No meio de cada soluço,
Compus rimas. No meio de cada buraco
Fiz estrofe e abrigo. Por que foi que me permiti
Viver o mundo em versos escondido?

Achei que fosse uma revelação.
Pensei até que fosse terapia
Da melhor. Pensei que estivesse crescendo
E nutrindo minha habilidade de lidar com toda
E qualquer coisa. Mas não.
Perdi.
Os inícios e os meios e tudo, enfim,
Nada virou.

Se este é um poema reclame, pois
Que o seja. Não acho mais grandeza
Nem sequer traço de alguma coisa viva
Ainda que pequena.

Nada me comove.
Meus olhos já não sabem ver.
Minhas mãos não escrevem
Nada que eu já não tenha destruído

E tudo então vira jogo barato
E cheirando ao já vivido.
Mas tudo leve, brando
A ponto de desmanchar
Nada atravessante
Nada cortante
Nada capaz de desviar

Penso, então, por qual motivo
Deveria eu continuar?

Estou ainda a espera
De um poema desconcertante?
Espero eu alguém que venha
E encontre nessa manada de versos
Um que seja
Um que fosse
Ao menos, aconchegante?

E toda a revolução?
E aquela demanda
Por escrever
Para continuar
Vivo?

Eu já me sinto morto
E a culpa, talvez, seja mesmo
Dos versos, que espremeram
E cansaram
O meu arsenal de gestos súbitos
E destemidos.

Tudo virou reprodução
Até minha sinceridade.
Rotulada em marcador
Foi preciso dizer a honestidade
Para não haver dúvida.

Onde foi que me perdi?

Quando foi que se tornou fácil
Não gastar tempo a procura
De uma única e certeira palavra?

Pulo linhas como quem respira sem saber.

Não percebo o meu ofício
E não faço questão de o compreender
Pois eu morri
De tanta metáfora eu morri
Por tanto em versos
Me estirar, tal fossem camas ao sol

Eu perdi
A ponto de nem saber
Por onde comecei estes versos
Que se alongam
Sem pedir autorização.

Por hoje chega.
Amanhã, caso nada mude,
Eu tento de novo.
Eu começo noutra folha
Em branco, noutra página
Em branco para todo
E qualquer desastre.

São Paulo, 02 de agosto de 2015.

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