pesquise no blog

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Inevitável

Já deu tempo para ponderar
se o que há é dor do hábito perdido
ou se o que persiste
é a persistência do ainda amar.

A minha franqueza é tão límpida
que sequer me sobra medo
Para duvidar.

Certo
afirmo o que me consome
Completo
digo sobretudo o que pode vir a me fazer
tombar.

Se te amo?
Não cabe afirmar
porque te amo
na doença sua do nunca se bastar
Com você aprendi muito
mas, sobretudo
Aprendi a ensinar.

Te ensinei a ver os pés no chão
ensinei você a caminhar sem proteção
a flertar com o risco
que é estar vivo

De que adiantou?

Veio seu medo
e de mim você se tirou
E morri
e morro, amor

Mas já não me soa possível de amor te chamar.

Estranho foi você se tornando
e não há nada que possa fazer
inclusive porque
Não saberia mais te amar.

Por isso volto ao início:

que duro é se desabituar, não?

Estou aqui
e você em mim se persiste
mas não é que queira
compartilhar uma gota contigo
não é que eu precise
te ver, ouvir, contigo me compartilhar

Nada disso. Sua distância
é o meu maior presente.

Mas em mim, ainda assim,
você continua,

feito sombra
poema ruim que não cessa de me interceptar

O saber do fim eu já soube
já sabia
A dor que me dói
em doses pequenas
é do absurdo que o ser humano - você -
é ainda capaz de perpetuar.

sua fraqueza é fruto do mundo
e sua força é saldo desse abismo
que entre nós
você germinou,

Não te odeio
não te quero mal
mas por agora, sim
e pelo adiante sem fim

serás você para mim
o que meu corpo me diz
para que sejas:

ausência
distância
porcelana envolta em cristaleira

nossa amizade nunca vai nascer
porque feriste em mim
a confiança em ti

nosso futuro nunca será outra coisa
para além desse fim
que será
para sempre
e durante muito tempo
fim
silêncio
lamúria
tormento

a vida é feita disso, não?

Não mais confio em ti
nem em seu projeto de mundo
Danço só
amando os braços outros que me querem perto
apenas pela proximidade
Sem exigência de um futuro não vindo

Estou aqui
com os pés destemidos
estou eu, hoje, agora
repleto de suspiros

Porque foi você um sonho
um afã que me fez estar potente
mas que me matou
me matou

E é justo
justo é
que eu queria viver
sem te dar a oportunidade
de se aportar em mim.

Sem ti
sem ti
Sobrevivo eu
mais do que antes
Sobrevivo certo
de que o tempo
oh, tempo
o tempo, oh
há de me remediar
a ira
a sua burrice
a sua demanda
a sua esquisitice burguesa crônica filha da saciedade

Você tomba
porque se acha completo
Eu nunca despenco
porque nunca estive assim

nem sequer ao seu lado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário