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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Nossa Azarada Sorte

Para Flávia Naves

Sabe? 


Inventamos um nome. E um nome é esconderijo para mundos outros. Inéditos. Não sei te chamar de amiga, nem de Flávia. Flavinha não serve e muito menos basta dizer só amor. Chamo-te do nome que um dia você em mim plantou: ameido. Eu, seu ameido, você, ameida minha.

Há pouco nos falamos por telefone e eis um momento na vida que perdura nela para todo o sempre: o momento da mútua confissão. Momento em que em diálogo confessamos, por acaso, a mesma condição. Momento no qual reconhecemos quase que ao mesmo tempo a nossa prostração. Somos um tanto fortes, um bocado sábios, dividimos juntos o desejo por um mundo outro, menos em guerra, mais germinável. E quando - um ao outro - reconhecemos um soluço imenso entre nossas ações e gestos, quando flagramos um cansaço tenaz em nossos discursos, então, é preciso saber: a doença do mundo em nós se plantou.

O que fazer então, ameida? Talvez um ano vendo o rosto no espelho. Um ano sem palavras. Um ano vestido apenas de azul. Um ano acordando sempre às seis e enfiando as mãos na terra do mundo. Um ano comendo uma minhoca por semana. Um ano deitando-se nu sob a noite. Um ano longe. Um ano sem tudo aquilo que nos acostumamos a ter. Um ano mudando o corte e a cor dos cabelos. Ou talvez outros programas porque um café feito no bule também tem que valer. Um café para dois. Uma tarde dançante, por que não? Uma coisa qualquer, cafona, um dançar, até a vergonha virar lágrima e desespero para enfim ser só sorriso. Outro programa, ameida. Eu o tenho cá comigo: se chama Pop Rock. É um presente que ganhei da Eleonora. E quero experimentar com você.

Vamos? Desautorizar a doença que o mundo quer em nós mover. Vamos desautorizar tudo isso aqui no pequeno, aqui na minha casa, na nossa sede, no nosso apartamento. Vamos? Talvez comece pequeno, mas veja: só vai ser gigante, só vai brilhar no céu se fortes estivermos para mover tanto assim. Não vai se não for por nós e hoje o nós nos sufoca e a gente só pensa em tentar conseguir dormir.

Que não vai dar, que já não deu, que não dará, nós dois já sabemos. A miséria do mundo que disseram não ser nossa, tarde descobrimos ser nossa sim. Então perdemos. Estamos perdidos. Então vamos, vagando feito mortos, vamos mexer com tudo isso. Doses de prudência? Duvido, sabia? Prudência é também medo de acabar. E se está tudo assim tão moído, quem sou eu para achar não estar. Eu estou. Eu, diabético, chorando o Rio Doce recém-falecido.




Vamos, ameida? Vamos escrever um livro. Vamos distribuir pipoca na rua. Vamos fazer essas coisas todas que chamam de loucura, que chamam de loucura, essas coisas que chamam de loucura. Vamos fazer tudo isso. Vamos pintar o rosto de roxo. Vestir a roupa ao contrário. Vamos devolver ao mundo o seu reverso e depois rir, chorar, silenciar, vamos juntos mexer e nos olhar de volta: o mundo que nos cala também nos faz gritar. É essa a nossa condição, minha amiga. É essa a nossa condição: não gostar, não aprovar e, mesmo assim tão duros, tão certos, tão convictos, cá estamos nós sem saber como lidar.

Que pergunta fazer? Talvez: toma um café comigo? Que pergunta fazer? Talvez qualquer outra: pergunta-umbigo: vamos ao cinema? Vamos gastar dinheiro? Eu tenho um pouco aqui, vamos ao shopping? Vamos lamber o mundo que nos envenena e perverter nossa azarada sorte.

Estou cheio de músicas novas para te mostrar. Elas me mexem tanto. Danço em silêncio, danço privado de grandes movimentos, mas esta é minha época. Estas são as minhas dores, o meu pavor, nu, concentrado, a minha aporia, a minha afasia. Este sou eu: perdido no mundo e encontrado no seu riso. Como pode, não?

O mundo nos convidando a desistir e a gente lúcido a ponto de se chatear e doer. A gente disposto a se importar.

Como pode, não? A vida lá fora - tão aqui dentro de casa - pedindo ajuda e a gente sem saber com qual língua se conversa com o mundo. E Deus, ameida? Ele não fala nada? Vamos tentar falar com ele? Outro programa para as férias: vamos performar juntos? Vamos cuidar do nosso peito para que a batida adulterada que nos abate se estenda ao lá fora.

Eu não sei, tá? Porque não é sobre saber. Se estamos morrendo, se o destino é morrer, então qual medo restou? Moças e moços, crianças e velhos, todos os homens e mulheres do mundo atravessam oceanos nadando por sobre tubarões. E a gente? Quão mais longe podemos ir? Quão mais perto podemos entrar?

Vem tomar um café comigo. Ou eu vou de lancha te visitar. Vamos fazer pequeno. Mas vamos fazer juntos. Despachar o mundo. Despachar este mundo para outro que vem vindo.

Eu te amo. E a sua dor em mim vira música.

Dança Ela comigo?

Do seu ameido,

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