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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pequenas veleidades numa tarde de sol

Estava suado, completamente, encharcado de seu próprio eu, cansado de sua própria carne e cheiro. Estava torto, seu andar não compreendia as linhas das calçadas. Apenas, entre elas, alternava. Ora muito próximo das entradas dos edifícios, ora muito colado aos carros que corriam velozes pelo asfalto silenciosamente preto e em negrito. Estava vencido, vencera a si mesmo. Conseguira, finalmente!, sobrepor-se a sua própria carcaça. A vitória custou-lhe a dignidade. Suado e sujo, mas feliz. Incompreensivelmente feliz.

Olhou-se no espelho, no tempo de esperar o calor tocar a fria água que pingava do chuveiro. Esperou, olhando os próprios olhos. Um pequeno jogo fora de hora. Gostava de se propor esses desafios, ridículos, mas sempre intrigantes. Como se olhar, rumo aos olhos do espelho. E assim, tentar descobrir, desbravar, aquilo que ele mesmo escondia de si. Mirou-se, já pensando ter visto algo que não gostava. Mas era ele e por isso, achou-se triste, por um instante. Infeliz. Não conseguiu sorrir, em seguida. Costumava sorrir para amenizar a vida. Mas que vida havia enfim para amenizar? A garganta apertou e percebeu-se ridículo demais. Talvez fosse essa a maior conclusão dos últimos tempos, da sua vida. Ser ridículo.

Para sentir-se leve e disposto, ousou partir de casa, no início de uma tarde, sem passar o cinto pela calça jeans carregada de suor antigo e perfurada pela preguiça de uma costura. Achou-se leve, visto que jeans e malha branca era o que havia de mais volátil e santo. Por isso andou também mais leve. Se alguém o olhasse com um mínimo de atenção, veria ser ele capaz de não tocar nenhum dos pés no chão quando trotava as pernas. Estava mutante, disposto ao novo. Combatente direto do próprio semblante, amarelo, verde, vulgarmente vivo. Forçosamente sério. Naquele início de tarde, não havia fezes de cachorro que pisoteada no chão da cidade desvirtuasse seu rumo. Estava decidido, apesar de ter a calça caindo-lhe periodicamente da cintura rumo ao desejo.

Sempre teve o dom de se ferir. Nunca precisou se expor para sangrar. A dor nunca lhe veio de surpresa ou por encomenda. Vinha-lhe em todo maldito despertar, como o café de um dia que amanhece sem sal. Por isso desviou-se de suas retinas. Comprimiu-as, encharcadas, e recostou o crânio recheado pelos cabelos oleosos na porta do box. O tempo esquentara a água, finalmente. Entretanto, teve nojo. Lavar-se seria doloroso demais. Teve medo, profundo. Temeu encontrar em si mesmo aquilo que não saberia devolver ao dono, resquícios daquele que não saberia quem era. Pedaços pós-desejo que já não significariam nada exceto a indefinição das próprias coisas. A cabeça se acariciava sozinha, empurrando-se contra o acrílico que separava a sujeira de sua fugida, do pranto de sua própria vida. Cruzou a porta e o filete de água quente pareceu cortar-lhe a perna direita.

Passou despercebido em meio à fumaça dos carros e cigarros. Sentiria muita dor de cabeça caso não estivesse focado no consumo dos desejos há tanto reprimidos. Faltava voar para desenhar no ar sua tamanha felicidade, ou talvez, menos utópico, faltaria voar para que atingisse a todos os lados e assim poder se gozar no comprimento de suas veleidades. O sol ainda persistia. E talvez por isso tenha o enfraquecido. Havia brilho demais naquele ar. Seria impossível voar em meio a tanta luz, pois ela o deformava, sobrepunha o falso brilho dos olhos e cegava o ser que andava crente no caminho desenhado pelo calor do corpo. O sol persistente ativou as sebáceas e as promoveu para um cargo mais producente. A pele avançou a película da forma maquiada, o sebo proliferou-se através dos poros e logo, o gesto, semblante, a cara, estava oleosa, deputada. Brilhava ainda mais tamanho o óleo que a sustentava. Sentiu-se perdido, numa calçada qualquer, e enveredou para outra estrada. A dos becos escuros, a dos locais onde não se vê muito as caras, nada que permita identificar o dono da genitália.


Banhar-se sentado o fazia sentir-se velho. Não suportava o horizonte do próprio corpo. Preferia juntar toda a pele e sentado no piso frio-quente masturbar-se, silencioso. Questionava o porquê desse ato tão repetitivo que já o fizera se perder, na contagem de vezes, nos litros perdidos, nos filhos desperdiçados, nos desejos prorrogados, nos amigos prostituídos. Tinha consciência do seu fazer, mas sabia que ela esmaecia tão rapidamente quanto antes começasse a ir e volver, indo e voltando, subindo e descendo, puxando e socando. No ritmo das forças que lhe restara, filosofava sobre os pudores da vida cotidiana, enquanto se erguia nele o dedo corruptor dos sentidos.

No beco a atmosfera não é ar, mas sim libido. O reprimido encontra a chave, endurecem-se mamilos. O silêncio não é medo, o espreitar não é crime. Tudo antecede o momento de consumir-se junto ao inimigo. Junto aos corpos, aos colegas de limbo. Não se perdeu em seleções. Avançou primeiro nas bandas que acreditou tocarem para ele. E mesmo não tendo sido exatamente assim, as bandas têm sempre um repertório a mais do que aquele rotulado dentro de uma capa temática. E é justamente quando a capa jeans rompe-se às pressas, que os ritmos se misturam. E é no silêncio do beco escuro que os corpos se misturam. E perdeu-se assim tão rápido e de maneira tão animalesca, que não percebeu que a portinha de seu segredo, era gêmea de outras rachaduras que se mostravam ainda propensas. De mão em mão, adquiriu a grossura do tecido de seda que um dia separou dois amantes. Era todo brusco, esfoliado. O corpo não mais lhe soava contraditório. Ao voltar para o sol da lua, pois o tempo no beco se perdeu nu no desejo, não só o óleo do rosto reluziu sua condição. Era suor do corpo que marcava cada passo que dava rumo ao que viesse acontecer.

O que se conclui vai-se em segundos. Perde-se o tempo quem busca o registro. Fica o momento para quem sente o consumido. Para quem degusta aquilo que vem e parte, lavado num gemido. Perdido entre as bolhas do sabão, inodoro entre os resquícios dos produtos químicos, a pele continuou dura e manchada. Era agora corpo dos becos, da beira de estrada. Corpo que se se apertando com força, estoura-se feito gema de ovo. E não há sentido em se contar o sentido. Compartilha-se, reproduz-se, se testa novamente, todos os dias, para que se tenha, cada vez mais, mais controle. Para que se treine a mira, o engatilhar, o tiro, o despedaçar. Nessas pequenas vontades que surgem na ociosidade de um dia ensolarado, o beco é um lugar sagrado. O peito é outro. O beiço, o leito, o leite... São com as pequenas vontades de um fim de tarde que somos mais impuros e lúcidos. Mais transparentes.

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