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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Aqui está tudo assim explícito

Tenho os olhos fechados
Eu não tenho medo
tenho a sala vazia
a chuva lá fora
o barulho que me apavora
está aqui dentro.

Com calma eu avanço
etapa por etapa
andando no centro da sala
eu toco o ar
para encontrar uma parede
fria
mas sólida
durável no passar das horas.

Toca um piano para mim?

Dizendo assim que sim
eu entro nessa nova composição
e juntos
apenas juntos
somos mais música do que canção
somos mais alguma coisa que só contramão.

Toca um piano para mim?
Eu pergunto e você diz que não.

Meu corpo não é de brinquedo.
Não se conserta qualquer estrago.
Meu corpo não é qualquer desejo
não é escopo
imaginário.

Está chovendo lá fora
O piano aqui dentro
são teclas caindo
gotas tocando

O que é isso que sai dos olhos
que não é só pranto?

Uma parada, por favor
Um momento de respiro
de não-pressa
de não-cotidiano

de mimo
memória

Toca um piano para mim?

Você agora diz que sim
as teclas perpassam
furam tudo o que há
estão elas dentro de mim?

Toca, sim
Venha pelos dedos
venha pela combinação
de lá para cá
imprima na pele o seu toque
o seu musicar

Arranhe um pouco o olhar
para fechar a vista
e escurecer

No escuro eu quase sempre reconheço você.

Continue a tocar
Ninguém aqui nos vê
O excesso dessas palavras afasta a todos
ninguém quer ler
ninguém quer saber
nada
que não sirva apenas para si

Mas aqui falamos só de nós dois
de nós que nos prendem
de intrigas que nos esquentam
e fazem a música seguir
sem sentido
mas num só tino

Você toca um piano para mim?

Pode ser que sim
pode ser que não
Pode ser o que quiser
Pode ser com a outra mão
Leve
ou impreciso
Falseando um
ou outro
sorriso

Não importa mais
Aqui está tudo assim explícito

Tudo do jeito que eu sempre quis
Não há segredos
porque a verdade é duradoura
e a beleza nela insiste
não é possível fazer outra escolha
que não essa

Não é possível
que esse piano
não nos obedeça.

Toque para mim, por favor

E juntos, eu e este som
seremos mais que um
mais que uma simples canção.
...

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