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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Divã

Sabes que sim. Dificultaste o próprio martírio.
É verdade. Você sequer se permitiu o abraço materno
cuja validade - você quem determinou - venceu faz anos.
Você se mirou no espelho, repetidas vezes
sem ou com cabelo
chorando ou mesmo seco
E ainda assim, fostes ainda mais longe
Mais longe de qualquer ajuda.
Inventou para si uma dor maior que aquela
que já tinhas. Na sua solidão, certa vez,
você se flagrou confuso
Foi ali que tudo havia já se perdido
pois você não percebeu que a dor que te doía
Era invenção sua. Também.

***

Poderias ter buscado a ajuda divina.
Poderias ter ido mais com os amigos
do que com o cigarro ou com as bebidas.
Poderias ter ligado
- estava escrito o nome e o telefone -
e agendado uma primeira consulta.
Mas não. Achou você ser nobre
doer sem ninguém que o remendasse.

***

Hoje, nem sei dizer o porquê
Hoje você respira, entre tosse,
e parece se achar mais sadio
Você - mais saudável - só porque isso:
percebes agora que a maior parte desse horror
foi coisa sua, inventada, como se precisar de afago
de remédio
fosse história de crianças gordas mimadas.

***

O que fica ainda dói, mas é claro
Você se machucou tão profundo
que a todo instante seu corpo soluça
A cada passo, sua cabeça lhe dá uma volta
e de novo, e mais uma vez, você se perde
daqueles dias em que os seus pés
andavam pelas ruas escrevendo
versos quando não longas prosas.

***

Não penses que a doença por ti alimentada
e em doença transformada
Não penses que ela acabou.
Você abriu em si uma cronicidade
que não vai acabar por agora
nem sobre o leito ela acabará
já não mais divãs
nada, exceto a constância interna
em ti, do eterno mau estar.

***

Se me condeno? Não. Não é isso.
É só que preciso reconhecer
que a dor de um homem que ama
pode virar seu maior e mais difícil embargo.
Vivi a vida como se tivesse em dívida
Me fiz desconfiar de cada sorriso
de cada vento, eu duvidei
e agora assim, ao menos por mais um ano
eu sinto, eu sei
Assim eu viverei.

***

Pequeno blog do desassossego.
Lembre: foi no último ano que você aprendeu
a escrever esta palavra: desassossego
sem precisar do corretor automático.
Aprendestes sozinho a conjugar verbos em segunda pessoa
por insistência em se referenciar como se a sua dor
fosse a mais digna de cuidado.
Caíste na própria armadilha
e o sol passou e a praia foi engolida
pelo seu esquecimento.

***

O que te resta? Se eu te sugerir um divã
você por certo ainda vai rir
como de outros, antes de ti, você riu
Sempre riu. Mas é certo: habilidade você não tem mais
não teve, nem terá por agora
Sua dor virou seu amor
e seu amor está todo doendo
sem saber se há limite vindouro
a cessar tamanha auto-tortura.

***

Se eu pudesse te dar um conselho
um único, este seria: desentronizar.
Sabe? Tirar do trono. Se tirar do centro,
se deixar passar. Tire a sua dor do alto
e a permita se respirar. Assim, eu acredito
talvez, não tem como precisar, assim, talvez
Você verá passar um verão, um outono, inverno,
primaveras virão e então você verá
que toda dor é do mundo e nunca só sua.

***

Então um dia você deitará em qualquer canto
em qualquer abraço, num chão qualquer
dentro do táxi ou do ônibus
E então você sentirá:
só se apaixona pela dor quem não sabe onde depositar seu amor.
E então rapidamente você verá:
lá fora, no mundo que você tanto ignora,
tem gente aos punhados querendo desovar o tanto
que pulsa sob o nome do amor.
E você irá, Diogo?
Você não foi?
Ainda não?

***

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