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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

sem título

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Ela - Você sabe que isso que estamos dividindo não são livros somente, não é?

Ele - O que mais pode ser?

Ela - Não espere que eu vá responder tudo o que você tem medo de falar.

Ele - Porque eu teria medo?

Ela - Porque você tem.

Ele - E se eu disser que não tenho mais?

Ela - Prove. (Pausa) O que mais estamos dividindo, além destes livros?

Ele - Estamos dividindo algo que construímos juntos.

Ela - Algo como o que?

Ele - Algo. Não importa dizer.

Ela - Importa sim. Algo como o que?

Ele - Algo que existe, independente do nome que recebe...

Ela - Já que o nome independe, qual nome poderia ser?

Ele - Não fique insistindo... Nem você consegue dizer.

Ela - Não inverta o jogo...

Ele - É jogo?

Ela - Não inverta. Diga o nome.

Ele - Além dos livros, estamos dividindo os nossos sonhos, as nossas...

Ela - Nossas?...

Ele - O que era nosso, o que foi feito por nós, o nosso...

Ela - O quê?

Ele - Eu já respondi. O nosso. Estamos dividindo o nosso. O que havia de único, agora será parte meu parte seu. Entende?

Ela - Cada um leva uma metade. Não te parece estranho?

Ele - Eu não tenho medo do que é estranho.

Ela - Mas esse separar. Não é estranho demais ver que cada parte só é parte porque está separada?

Ele - Você quer dar nome às coisas na esperança de desvendar o mistério de sua existência. Não seja tão pretensiosa.

Ela - Eu preciso. Você não vê? Isso que estamos fazendo não vai resolver nada.

Ele - Então me diz o que você quer resolver. Porque não jogamos tudo fora, porque não queimamos esses livros?

Ela - Porque não são apenas livros.

Ele - Não importa. O fogo queima também outras coisas.

Ela - E você acha que tudo termina assim?

Ele - Pelo menos estes livros eu diria que sim.

Ela - Não.

Ele - Não o quê?

Ela - Eu não posso deixar. Não podem ser queimados. Isso é negar o nosso passado. É negar o que vivemos.

Ele - E daí? Não posso viver do que passou. O que passou, desculpe, mas passou.

Ela - Não venha com suas filosofias baratas.

Ele - Então encare a simplicidade das coisas. O nosso presente é outro agora.

Ela - É o mesmo.

Ele - Não.

Ela - Não estamos aqui, juntos?

Ele - Não juntos realmente.

Ela - O que os vizinhos devem estar pensando?

Ele - Esqueça os vizinhos.

Ela - Foi você quem os colocou nessa história.

Ele - Não reverta o jogo.

Ela - Então é um jogo mesmo?

Ele - Não quis dizer isso.

Ela - Então diga o que você quer dizer!

Ele - Eu não quero levar nenhum livro. Eu não vou pagar para levarem pra você. Eu sequer me preocupo com a porra dessa prateleira, pode deixar ela aqui, pode vender! Amanhã alugaremos esse apartamento e com sorte, um dia o venderemos...

Ela - Até lá, no entanto, estaremos unidos, pois nada será completo, tudo será partido...


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