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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ou não.

Tentativa iniciada

No entanto, porém

Alguns resquícios reivindicam a sua estadia

Sobras que gostaria que não estivessem

Lamentos que tornaram-se crônicos

Solicitam em mim morada eterna.


Eu quero partir

Ver rachar a própria base

Para em meio às sobras

Descobrir o meu resto

O que de mim restou

E sendo assim,

Ser quem eu quero

E não quem eu sou.


Mais uma vez as palavras voltam para esse lugar do eu

Mais uma vez eu estou no centro

Eu estou no que é meu

No que olho

No que me seduzo

Naquilo que me derroto.


Eu estou aqui.


E como haveria de ser?

Vem sempre uma pergunta retórica

Que eu faço questão de contradizer.


Eu faço questão hoje em ser

Esta absurda negação

Se nada assim tanto me seduz

Eu digo

simplesmente

Ou não.


Mas devo insistir, eu sei

Algumas forças

Como os resquícios

Requisitam em mim uma limpidez inatingível

Mas desejosa de ser percorrida


Na cozinha

A panela estala

E dentro dela a água acidifica

Tudo para fazer um café

Que me leve no decorrer desta noite

De chuva


E grilos


E saudades


Em meio aos filhos.

Aos novos.


*


Não adianta tanto assim esquentar

As coisas

Quando excede o calor

Começam a morrer

E perdem sua integridade.


A água

Quando demais aquecida

Vira ruído

Dissolve a verdade.


Não adianta

É preciso ter calma suficiente

Nem para se esquecer

Nem para anteceder o corte

Que vem sempre para dizer

Basta!


Chega de calor

Chega de esquecimento

O corte vem sempre para dizer

Que o amor está virando tormento.


**


Me falaram de forma

De dar forma ao meu íntimo

De modelar peito e corações

A alguma arte - sensível -,

Falaram de sinceridade

Ela aqui se reconhece

Mais é preciso

Muito mais esforço

Tentar contornar a essência

E ressaltar

A sua falta de escapatória.

Deixar sem ar.

Tornar o íntimo espremido.

Fazê-lo gemer

Grunhir

E gritar.

Grita íntimo

Faça algo em todos nós conflitar.

Erga-se, não mais em silêncio,

E venha rachando meu interior

Venha mostrando ao mundo

Que desse lugar de onde tu partes

Tudo enfim já está partido.

E juntos,

Daremos as mãos, eu aceito,

Façamos do enlace o estopim

Da nossa falta de ar.


***


Um dia eu o vi ali

Se esforçando para algo dizer

Não que não soubesse a língua

Não que não houvesse alguém ali

A lhe ouvir

Mas espremia-se de tal modo

Que tive eu mesmo que dizer,

Não pensa muito, menino

Porque pensar lhe roubará o dia


Ele me olhou fingindo surpresa

Mas não demorou muito a me insultar

Com outra rima,

Não pensa muito o dia será roubado

Não pensei muito e foi meu brinquedo

O quebrado.


Então era aquilo, eu percebi

O brinquedo meio rachado

E no olho uma lágrima a espera

Despenco ou não

Ameaço partir ou vou secar?


As dúvidas da lágrima foram se perdurar

Porque o menino ainda mais agora pensava

Matutava

Suava esforço sem parar e

Dizia entre os beiços algum outro insulto

Até que num clique

As peças se encaixaram

As rodinhas ao corpo voltaram

E do sorriso

As lágrimas escorreram

Se eu não pensar

Quem vai arrumar meu brinquedo?


Fiquei ali no chão da rua sentado

Meio sem nexo

Meio do meu posto arrancado

E a criança voltou a brincar


No ruído do seu carrinho na pedra a trepidar

Eu percebi o tamanho do esforço

O tamanho do pensar que eu fizera

Naquele momento

Para entender

Que uma coisa é brincar

Enquanto a outra

é o incompreender.

.

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