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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Consciência

                                      Acordei sem drama. Fui até a cozinha, coloquei o café para fazer. Fui ao banheiro. Olhei-me no espelho e pensei em você. Você que hoje está tão longe, mais longe que distância é capaz de dizer. Mais longe do que quilômetros podem sugerir. Eu me olhei e vi você. O rosto recém-acordado, eu duvido, talvez estivesse mesmo sonhando, porque não paro um segundo de pensar em ti. Estou me comovendo com isso. Com essa desgraça que é ter você aqui comigo mas feito lembrança, feito carinho à pele e nada mais. Tudo assim passado, em mim resignado feito adeus espetacular.
Estou com saudades. Não adiantaria te falar. Às vezes é preciso partir, deixar correr, eu não poderia te segurar. Eu não posso eu não vou. Te privar do quê? Você tem o mundo. Eu também o tenho. Então que a gente se encontre nessa imensa vaguidão. [...] Sabe? Está chovendo nesta manhã. O meu café resta a minha frente e está quente, não quer esfriar. É bom. Sinto que o mundo escorre um afagar contínuo e despretenso. Tudo está ameno. Eu vou colocar meias limpas, lavar os cabelos com calma, deixar a espuma limpar meus olhos - ambos, agora - abertos.

Eu só queria dizer que me importo. Que me importa a sua falta. Que me importa que a sua referência para mim seja, neste momento, análoga ao faltar. Não. Não o deixe ser assim. Vamos presentificar. Eu vivo agora, como pode ser? Eu vivo este segundo e nele agora morto eu vivo de novo o outro que antes a gente pôde prever. Mas que agora, falece outra vez.

O tempo não existe. Existe o toque. E tão somente a falta. O resto são coisas inventadas. Palavras com rimas, sinônimos... Eu parei agora para olhar pela janela. E não vi você. Vi uma nuvem, várias delas, negras, escuras, acinzentadas. Hoje o dia vai ser tão quente quanto tem sido essa sua falta que me afaga. Cinza, mas querido. Num cheiro mesmo seu meu nosso adormecido, o dia hoje vai ser lindo. E olha que não estamos juntos ou sequer pertos. Mas é que a nossa beleza tem pretensão à eternidade, ela é capaz de costurar.

Vou sair. Com guarda-chuva, no caso de a felicidade apertar e se converter em choro torrencial de alegria. Não, amor. Isso não é ironia. É sério. É isso. Depois eu te conto do meu dia. Eu te chamei de amor. Você fez isso comigo outro dia. Se lembra? Eu quis tanto lembrar que acabei por esquecer. Quando voltares, poderemos de novo um ao outro dizer: como foi seu dia, amor? E então, mudaremos juntos as estações de lugar. Mudaremos juntos a noção de calor e frio e - juntos - mudaremos a vaga noção do que possa ser esperar...
                
   

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