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domingo, 5 de julho de 2015

E então disse ao moço da recepção: já estou descendo.

Sonhei com você. Já fazia tanto tempo que isso não acontecia (nem sequer me lembro se, depois de tudo terminado, cheguei alguma vez a sonhar com você). Mas sonhei. Nesta última noite, sonhei que estávamos os dois numa mesa em alguma cafeteria. Como sempre, sob a mesa, minhas pernas estavam cruzadas e, diferente de hoje, minhas pernas esbarravam nas suas. Meus nos seus pelos. Conversamos um bocado, entre torradas e café.

Eu lhe disse com bastante clareza (estranha clareza para sonho tão obscuro): desde que você partiu, eu continuei a te amar. Desde a sua partida, eu não parei de te procurar. E então você sorriu. (Acho que você sorriu. Eu também sorriria). Você sorriu e eu lhe disse ainda mais: disse que não me fez falta o sexo com você. Disse que a falta suprema era a do abraço, a falta do ficar junto, de passar as horas ao seu lado.

Sonho tem dessas coisas. Saltos temporais e espaciais. Quando vi já estávamos dentro do meu apartamento e ele estava ainda mais diferente do que hoje. A primeira coisa que você disse foi: teremos que ver algumas coisas, o que é preciso comprar, ver a coisa do telefone e seguiu falando das burocracias todas na vida de um casal. Eu estava inseguro porque já faz meses estou sozinho e, de fato, voltar a você não seria uma escolha sensata. E você falando - mais uma vez - de comprar, de arrumar, de fazer por meio das coisas materiais o que deveria ser ação nossa.

Depois, no meu sonho, acho que você mudou de rosto. Não me lembro para qual rosto, mas você mudou e deixou de ser você. E eu me vi, novamente, negociando com um antigo amor que queria voltar a estar comigo. E tudo foi tão estranho porque só mesmo em sonho para existir isso. Eu estava onisciente, ciente da minha situação dentro e fora do sonho. Eu segui conversando, avaliando as possibilidades, mas mesmo assim a possibilidade real do reencontro sobreviveu apenas no sonho.

E acordei. E era cerca de cinco horas da manhã. Fui ao banheiro, fiz xixi, bebi água e escovei os dentes. Voltei à cama e falei a mim mesmo, com evidente cara de espanto: você sonhou com ele! Deu-me um remorso. Não que houvesse problema, mas o que me interessava era averiguar o porquê de em sonho te encontrar. Deitei sobre a cama e na tentativa de compreender alguma coisa acabei por dormir ainda mais profundamente.

Meus desejos, tal como minhas pernas, se espreguiçam - hoje - livres, potentes e capazes do se multiplicar. Tudo em mim conversa e nada mais sobra em conserva. As coisas que tenho a dizer foram ditas e meus desejos já desejados hoje são apenas belas imagens de mim distintas, posto queiram sempre armar barraca onde eu almejo apenas ser ainda tempestade.

Sonhei com você e acordei sem ter soluço ou remorso ao descobrir ter sido somente sonho. No banheiro, após tomar o matinal banho, frente ao espelho, secando a barba com o secador de cabelos, eu me vi repleto por ter sonhado e ter acordado ainda mais esperto, mais sensível e ligeiro. Não vou parar porque o sonho é só diversão para tempos passageiros. E peguei o telefone e perguntei: o café da manhã é servido até que horas?

Dez horas. E então disse ao moço da recepção: já estou descendo.

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