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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Eu segredo

Com que facilidade, oh poeta
vens aqui e trança suas ficções
Com que moleza sua vida vira tema
e seus temas extrapolam
uma possível transposição de volta
à lida dos dias

Com que dor imensa
seu corpo é alvejado por adjetivos
com que cor suprema
a pele é recombinada em meio
a tantos sentidos

E o que resta, eu te pergunto
Aqui hoje o que eu posso lhe perguntar
que não isso, a saber
quanto de vida inda resta em você?

E me dirás, eu sei
posto seja eu você
me dirás que a vida que te resta
é aquela do mesmo tamanho
desta poesia que juntos
você e eu
acabamos de escrever

Oh, poeta
eu não cesso o perguntar
é só que às vezes
eu queria que você fosse capaz de parar
suprir a ficção
e deixar a vida crua ir se perder
ela precisa se acostumar de volta às quinas
aos buracos

A vida precisa vez ou outra
ser colapso
sem melodia que a faça quedar
sem estrofe que coagule o corpo
sem analogias capazes de fazer durar
por um pouco mais eu te peço
deixe-se estragar

sem ao mundo querer dizer
sem palavras tecer

poetize um dia sozinho
sem se abrir
sem se cortar
em segredo
eu te peço
consiga se entreter e bastar

Oh, poeta
eu que o sou
peço a nós mesmo
férias das profundezas
calor mediano
chuva incapaz de encharcar
eu te peço, poeta-eu

deixe estar
que a floresta densa
e lacrada
há de se arejar,,

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