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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Sobre a afirmação de ontem

Morreste meu pai.

Metáfora? Não,
para mim, desde ontem
É fato o fato de que morreste meu pai
Desde ontem, também já enterrado.

Não rolou
Não aconteceu
Nem houve pistas de que pudesse
um dia
Funcionar

Morreu cedo e prematuro
apesar de um tanto carregado de certezas
e tomado de preconceitos.

Morreu burro
como ao mundo veio
E tudo então seguiu-se a isso:

Morreu orgulhoso
gritando suas verdades
Morreu sozinho é claro
e odiado por si próprio
(E por muitos outros).

Morreu porque sim
Morreu por inação
Morreu e em seu velório esteve ele
e um ou outro televisor
Em Rede Globo sintonizados.

Morreu meu pai incapaz de rir
ou chorar
Incapaz de mistério e gracejos
Incapaz de dúvida
Incapaz de jogo
Incapaz de rubor a anunciar alguma descoberta

Meu pai morreu incapaz de surpresa.

Como é duro e mortal um homem que se acha certo, não?
Como é mortal, propenso à morte, um homem que não muda a própria sorte, não?

Morreu cedo o meu pai
apesar de cansado 
Morreu sem história
apesar das viagens
Morreu chato
apesar de mentiroso
Morreu meu pai

E o pior

Foi sem nos causar dor
Foi sem nos causar pena
Causou alívio
Imediato
Causou sossego
Finalmente

Ele morreu

Morreu meu pai e deu-me fim
Finalmente
Ao exausto exercício de tentar compreender o porquê de algumas coisas no mundo não terem explicações e serem tão insuportáveis assim como ele era

Morreu meu pai e hoje eu amanheci livre
e sem os dilemas de outrora
Que meu pai possa gozar a vida que não teve
Que possa ser senhor de escravos como sempre sonhou
Que more na Terra do Orgulho onde possa bradar suas mentiras sem ser duvidado
E que possa ser ouvido por muitos e seja livre para acreditar na mentira de ser amado

Que possa, enfim, meu pai
Um dia
Ainda mais sozinho do que ontem
e hoje
Perceber que a vida passou por ele
e que apesar de se julgar esperto
ele não esteve atento

Que percebas, meu pai
Que não rolou
Não aconteceu
Que não tivestes escuta.
Nunca soube o que pudesse ser
um punhado de palavras nobres
Que para os cristãos
- oh, que pena! nunca teve ele a condição de estudar -

Pai, morreste para mim no dia em que usastes de ironia para me cumprimentar
Morreste e a partir de agora vou me partindo de ti até quando de fato estarás morto

E quando eu morrer, pai
Não por sua causa, obviamente
Então a vida seguirá com os outros
E não com a nossa estirpe
Tão torpe orgulhosa e triste.

Odeio-nos.

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