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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Conto Critico

Pensou ter chegado ao ponto final. Ao limite, era isso, ele (ou ela, não importa), ele chegou ao limite. As unhas - todas - carcomidas. Os olhos - ambos - avermelhados, falhando a vista. Os sonhos - os que sobraram - feito ficções para jovens amantes. Nada dera, nada fora, nada ficara. Exceto aquela certeza - ao menos uma, pensou - aquela certeza triste, solene, de que o limite ali a sua frente o lembrava: eu ainda estou aqui.

Ela então quis, fazia tempo, mas quis se apaziguar. Nem bem se colocar no colo, nem bem se amar, mas quis, sinceramente, se permitir parar um instante sob o toldo alheio ao vendaval dos devaneios. Parou sob o toldo, era de plástico, mas sentiu mais calor que frio. E então o limite a lembrou: ainda estás aqui, ainda aqui, tu ainda estás aqui. Feito melodia teimosa que mesmo incompreendida sabe como se fazer ficar, o limite permanecia como se perguntasse a ela (ou a ele, tanto faz) para onde ir.

Sempre pensara que o limite fosse algum lugar no qual se pudesse chegar a alguma coisa, que fosse o fim. Mas o limite último, tal como agora sentia a sua frente, ao seu redor, apenas dava continuidade a tudo de antes, porém, exigindo um agora inédito, uma virada sagaz, um transtorno capaz de engolir tudo que viera antes em troca do imprevisível à frente. Certo. Nem demandava tanto tempo assinará entender o que sobrevivia sem entendimento. O limite estava ali, a sua frente, chamando-o para conversar.

E então ele foi.

Sentou-se, não sem alguma impaciência. Tinha tanta coisa anterior que quisera explicar, perguntar, compreender. Mas era aquele o momento, não para chegar, mas para de si se perder. Deu as mãos à madeira do banco no qual sentara e se deixou guiar pelo limite posto a sua frente. De olho nos olhos retintos, sentindo de perto a respiração do outro também acirrada, vendo o suor descendo calmamente as linhas do rosto, frente ao limite ali declarado, ela soube o que então se anunciaria, por isso foi firme:

- Não acho que seja mais possível.

Ele (ou ela, nunca saberei) responder à afirmação:
- Creio que, ao menos nisso, a gente se concorda.

- É.
- Pois é.

O ar condicionado dentro da cafeteria (era mesmo uma cafeteria) parecia catalisar o encontro final. Ela retomou:

- Falamos sobre o futuro ou sobre o que vivemos juntos?
- Eu acho que falar do futuro agora não diz mais respeito a nós dois.
- Imaginei que você fosse falar isso. E é verdade.
- E falar do passado para quê?

Ela (ou ele) não respondeu. Pensou que falar do passado, agora que tudo se acabava de fato, seria o mesmo que correr desesperadamente atrás de uma explicação que pudesse os impedir de pôr fim ao fato, ali, compartilhado.

- Podemos falar do presente.
- Sim, do presente sim, parece mais sensato.
- Há alguma sensatez nisso tudo?
- Sobreviveremos.

Ele levantou da pequena mesa. Eles (ou ele e ela, ela e ele, ela e ela, ele e ele) sabiam que não seria preciso continuar mais com aquilo.

- Posso pedir a conta?
- Deixa que eu pago.
- Eu posso pagar.
- Eu sei que você pode.
- Vai embora.
- Eu vou.
- Então vai.

Sentou-se. E os olhos brilhavam como nunca antes.

- Posso propor uma coisa?
- Agora?
- Foram dois cafés, certo?
- Isso. Por quê?
- Vamos sair dessa cafeteria sem pagar.

Ele (ou ela) não tinha perguntado, mas sim, afirmado. Ergueu-se. Ela (ou ele) acabou sendo tragada ao jogo final. Levantou-se também. Começaram os dois a vagar pela biblioteca como se estivessem, não indo embora, mas sim, interessados pela imunda decoração do espaço. E juntos foram, pela última vez, jogando juntos e em comum acordo. Até que a porta da cafeteria se abriu e de dentro dela eles saíram, para nunca mais se verem novamente.

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Desejo a todos os seres humanos
a possibilidade do jogo como maneira
de sobreviver às imposições e
hábitos da vida.

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