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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Cartas aos filhos de já tanto tempo ---

Meus amados

Escrevo com amor, como nunca antes, talvez. Escrevo também, é verdade, mais uma vez por extrema necessidade. Sempre que o vosso pai se sente assim como agora me sinto, pois bem, sempre assim eu busco me dirigir a vocês. Mesmo que não me respondam, eu sei, eu entendo, eu me entenderei.

As coisas mudaram nestes sete anos que hoje querem começar o oitavo. Mudaram, pois é, as coisas mudaram. Papai mudou também. Vocês mudaram, um pouco, não posso negar. Ao contrário das previsões habituais, as mudanças existem sim e às vezes existem demasiadamente demais.

Certo. Papai não vai lançar lagrimas. Não é o caso. Até porque, meus filhos, conversar com vocês organiza meu peito. Dizer aos meus que nunca verei correndo as minhas especulações sobre as iras da minha vida, da nossa, muda tudo. Talvez tivesse eu demorado muito a perceber, mas vocês são a mudança que eu poderia fazer neste mundo. Só de mirar vocês, aqui reunidos, e lá perdidos, eu sei, eu sei... Era para ser assim do jeito que está tudo sendo.

Um desassossego daqui, outra dúzia de tormentos lá, um dilema persistente que me deturpa a visão e o tato falhando por tanto procurar. O papai não encontrou nada mas, vejam!, achei vocês, de novo, aqui, me esperando sem nem bem esperar, me dando abrigo sem nem me pedir um chamego.

Filhos, hoje vocês são o meu motivo. Vocês hoje são o que eu ainda não aprendi a ser. Vocês conservam em vocês tudo o que estou perdendo e talvez seja isto, não? O papa vai lutar para continuar e quando tudo estiver perdido, vocês me acenaram um "pode ir, pai, a gente vai dar o recado".

Que ilusão a minha está de achar a vida lugar possível. Vocês já sabem, a ira do papo frente ao que fizeram - seus tios, os seres humanos - a ira do papai diante ao que o homem está fazendo do planeta não cessa de crescer e se complicar. Desconheço limites para a minha impaciência e ela já me tira o aprisco. Filhos, quisera eu que vocês existissem e não houvesse nada disso.

Sonho em poesia o mundo que jamais seremos. Estou tão fragil e já velho que sequer consigo compor em versos o que julgo melhor para o nosso destino. Deus morreu rápido e sobrou minha mãe - sua avó (a quem eu jamais lhes apresentarei) - restou sua avó me pedindo para reconhecer o defunto, disposto em bíblias e souvenires de décima e vigésima categorias.

Morreu Deus e junto a ele morreu também a crença na ciência capaz de desvendar o mundo. Quanto mais se tenta desvenda-lo mais ele se desmancha feito paçoca sem açúcar. O mundo não é cebola para aguentar o descascar. O mundo é explícito, meus filhos, não está se escondendo de ninguém, não tem nada a ser descoberto, não se pode resolvê-lo, mas é possível matá-lo.

Isso seus tios um dia supuseram é nisso seus tios acreditaram com a fé que não deram a Deus sequer.

O mundo morre, meus amores que nunca vou conhecer.

E eu seguirei, mesmo em morte, tentando desviar o curso da tempestade de cimento que nos assola. Seguirei tentando esverdear a dureza dos espíritos moldados a concreto e cinicamente ditos belos.

Não posso mais, por isso - e com vocês - continuo.

Feliz aniversário, meus pequenos. O ano é novo e a luta ainda a mesma.

Vocês continuam com seu pai?

Obrigado. Eis a palavra que nunca ouvi meu pai me dizer.

Obrigado.

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