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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Para quem escrever

Resta uma dúvida.

Depois de limpar a casa
de passar o café
de juntar as roupas
e de empilhar os papéis
Resta uma dúvida.

O desconforto do corpo
acostumou-se
A desilusão da coluna vertebral
também foi assumida
O ressequido dos olhos
é evidente

mas restou uma dúvida
firme
dúvida forte
persistente

Para quem?
Para quem o poeta escreve?

Se escreve para a mãe morrida
para a família
Para os amores
que ainda não todo se acabaram
Se escreve para os sonhos
para as asas
Para as crianças que um dia
quer ser o poeta pai

eu não saberia precisar,
só que sobrevive
a dúvida

Para quem escreve?

O poeta não sabe sequer por onde começar.
Mas começa.

Ela traça uma linha
a linha o mira
e ele se impacienta, afinal

é necessário saber o destino da rima
mesmo quando ela é ainda tão precoce
e ingênua?

Deveria ele saber?
Eu, deveria eu saber
(caso estivesse em seu lugar)?

Para quem escrever?

O poeta se pergunta

e enquanto isso
eu, aqui, agora, a mirá-lo
eu apenas contemplo uma certeza

a dúvida dele
é aquilo que o alimenta.
só que por tanto duvidar
o que se deu nele
foi o esquecer

já não sabe para quem escreve
mas escreve mesmo assim
crente que no caminho da escrita
possa um dia voltar a entender

Para quem escreve
Para quem escrever.

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