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sexta-feira, 9 de abril de 2010

ou a razão pela qual você se foi.

ANA – Quando eu penso no seu motivo, eu já não sei se é apenas um ou se nem mesmo existiu alguma coisa. É difícil. Quem suspeitaria? Você se foi e deixou mais presença do que sempre teve. Desculpe. Mas se antes eu conseguia não pensar em você durante um dia ou por algumas horas, que seja, isso era apenas porque não havia em mim a noção do que é perder. Hoje eu tenho. Hoje eu sou isso. Hoje eu entendo. Não aceito. Quer dizer, eu aceito. Mas não entendo. E nem aguento mais procurar motivos. Não consigo acreditar na sua coragem. Partir assim, como quem acha que pode voar. Se jogando de uma altura de cinema. Você se jogou de uma altura que nem tinha sido inventada! Eu hoje olho para você parado naquele tempo nosso. E no fundo você sempre se achou vanguarda demais. Percebe? Que eu nem choro mais. Ai, sequei, sinceramente. Você virou prosa. Você no máximo hoje pode ser poesia. Acabou aquela dor. Mesmo que noutro dia eu tenha desatado a chorar. Acontece. Mas no máximo, hoje, você é rima, recreio de verbos e adjetivos e metáforas e linhas, tudo tentando desenhar um motivo. Que não veio. Não vem. Ainda não. Sabe? Eu estou esquecendo de tudo o que vivemos juntos. Algumas coisas muito certeiras, muito pequenas, são estas que ficam. Feito memória. Tenho medo de te esquecer. E de um dia ver a sua história, que é minha, ver a nossa história na tv, ganhando audiência e não minha devoção. É isso. Eu não esperava, mas você virou a religião que eu nunca tive. Chorei tanto por sobre o seu corpo. Chorei tanto. Que as pessoas olhando começaram a achar que meu choro era encenação. Que engraçado. Na verdade, a gente, o ser humano, eu quero dizer, a gente é tudo bobo. As nossas tragédias não duram muito tempo. Sempre tem que ter um comercial de margarina. Tudo acaba mesmo em pizza. Isso é bom. Quer dizer, me desculpe, não é deboche, mas é que passou o tempo, passou tanta coisa e você continuou estático, morto. Sabe? Eu quis apenas dizer que enfim… Você morreu, é isso.

Escorre da narina uma gota.

ANA – Lembra quando no cinema escorreu sangue do seu nariz? Lembrei disso agora. Estou com sono. Você não veio. Toda noite isso. Eu sento e te escrevo. Amanhã vou imprimir e me sentar sobre o seu túmulo e ler tudo isso. Quem sabe você me escuta? Quem sabe? Ninguém sabe. Eu não sei. Me diz uma coisa, vai! Qualquer coisa! De qualquer jeito. Eu sempre te peço isso. É meio desespero mesmo. Não importa. Amanhã, no cemitério, eu vou olhar a natureza e vou achar que é você falando comigo. Ah, por favor. Palhaçada isso! Que eu não sou besta! Quero ver você falando, sorrindo, mesmo que seja sangrando. Preciso da sua imagem. Não posso mais te imaginar. Sabe? O tempo passou e você ficou jovem lá atrás. E hoje quando eu penso em ti me surgem suas espinhas. Dá vontade de rir. Eu cresci, virei mulher, entende? Me sinto quase pedófila, amando você em sonhos passados, quando nem sequer era moço grande, quando ainda usava roupas coloridas e tatuagem. Necrófila, né? Que horror. Não tem nada disso. Eu que tô boba hoje. Eu que tô sempre boba, a princípio. Acho que vou gripar.

Escorre da narina gota seguinte.

ANA – Menino, você foi corajoso. Ou medroso. Você tava drogado? Eu fico puta porque eu nunca vou saber. Nunca. Ai, é foda. Só aumenta o sofrimento. Ou a quantidade de besteira escrita. Você me serve para chorar e para fazer rima. É isso. Só para isso. Que tristeza. Eu queria entender. Um motivo que fosse. Foi por amor? Você se foi muito ferido, isso eu sei. Ela acabou contigo. Mas e o resto? Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na sua vida. Você pode ter ido porque queimou seu filme, não? Eu não acredito. Você podia ter me ligado. Deveria. Porra, ter pedido ajuda. Eu iria correndo, eu criava asas e te pegava no meio do seu mergulho eu te abraçava. Te abraçaria. Não ia deixar. Não ia. Não pode. Por quê? Eu fico puta, sério. Fico mesmo. Caramba, olha eu aqui sozinha dentro de um quarto no auge da minha juventude sofrendo porque queria estar compartilhando tudo isso com você. Não é justo! E eu nem sei dizer o porquê. Você sabe? Você sabia? Quando se tirou de mim, você sabia o porquê? Olha, o meu nariz tá escorrendo. É coisa de alergia. Eu sempre tive. Não é choro. Antes fosse. Antes fosse. Quando as coisas acabam, a gente começa a inventar maneiras de ter tudo de volta. E você está preso em garrafas. Eu chorei tanto você que tenho vários litros seus lá em casa. Eu devo ter ficado louca. Você me diverte e me tira o sono.

Escorre da vista esquerda uma gota.

ANA – Ih, pronto. Começei a chorar. Quanto tempo eu não fazia isso, meu deus. Ah, agora deixa. Deixa escorrer. Não vou pôr na garrafa não. Vou deixar você correr pelo mundo, evaporar. Sinto sua falta, sabia? Depois sempre passa. Mas eu sinto. Ai, que angústia. Que coisa torta que você foi inventar e onde? Logo em mim! Por quê? Será que você achou que eu saberia lidar com isso, quer dizer, será que você achou que ir embora assim era algo com o qual se pudesse lidar? Ai, eu tô ficando louca. Por sua causa. Mas não te culpo, você entende? É só vontade de apertar, de te abraçar, de sentir o cheiro do seu cabelo, ai… Agora eu não vou parar. Já quis morrer tantas vezes só de chorar. Me faz estar viva. Me faz saber o quanto eu fui capaz de amar. Me faz doer todo esse espaço que era seu e que agora tá gritando, ouve? Eu tô gritando! E quando pensei em te pedir um sinal, sabe? Como sempre fiz? Começou a chover tão depressa e tanto, que eu sei, agora eu sei, é mesmo você. Só pode ser. Ninguém vai me dizer o contrário. Eu não vou deixar. É você. É você. Você querendo voltar ou simplesmente querendo brincar. Brincar de ser chuva. Brincar de me tocar de novo outra vez agora...


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