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terça-feira, 27 de abril de 2010

casa.

esboço para futura dramaturgia.

eu cismei com isso de casa. quero que a próxima peça seja sobre ela. quero que a casa seja não somente o espaço mas sobretudo a personagem. seja o pote dentro do qual se conversam os seres, os ingredientes. a casa feita de chãos paredes e portas. casa com janelas escadas e assoalhos. casa cheia de medos canteiros e quinas dolorosas. colchões travesseiros medicamentos e torneiras gotejando. mesa vasta e larga. mesa de video quebradiça. prateleiras empoeiradas. esconderijos e mistérios. gás. água. terra. piscina repleta de folhas e lodo. quintal. marca de óleo do carro já saído. garagem vazia. familiares dispersos. o que estarão fazendo que não se encontram? será que veremos o todo ou somente o separado? será que veremos todos os cômodos ao mesmo tempo e indo um a um, como num jogo de teatro, um a um cada familiar vai até o centro da sala, senta na mesa, espera um instante e volta para seu refúgio. volta, no exato instante em que outro abre a sua porta e vai até o centro da sala, senta, espera e volta. no exato instante que outro sairá… numa coreografia do desencontro marcada pelo íntimo lacrado/desesperado. marcada pelo diálogo com o relevo com a arquitetura diálogo com os móveis animais aranhas e quadros. casa marcada pelo silêncio falsificado. murmurros foragidos nas cortinas, confundidos na profusão de objetos da sala. na pilha de jornais acumulados. segredos tentando voz quando a goteira da cozinha e do lavabo principal os silenciam, novamente. tudo tentando acontecer quando na verdade, a casa age maior impedindo aquele encontro de acontecer. e por que impediria? que motivo supor para a casa os impedir de se encontrar? talvez, eu penso, a casa retarde o encontro dos familiares porque compreenda que a partir dele a noção de família se desfacelará. será? evitar a reunião de família para não ter que evitar a noção de família? noção de família vencida. pois a casa não sabe, porque se ocupa coordenando entradas e saídas, a casa se ocupa controlando o jogo, então ela não sabe, ela não percebe o que cada um anda fazendo dentro do seu silêncio forçoso. ela não sabe, mas cada um arma da sua forma a sua fuga. cada um pensa sua morte. cada um tentará em breve sua sorte. em ações que não saberia prever, mas que intuo, serão esquisitas como é esquisito essa noção de família e amor que fizemos nascer. a casa não sabe. mas seus integrantes pelo silêncio armam sua implosão. o que virá depois? não restará tijolo sobre tijolo. eu acredito.

Um comentário:

Caio Riscado disse...

é isso.
mas a gente precisa conversar.
eu estou confuso, com medo. tenso.
sei la.
muitas coisas.

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