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segunda-feira, 19 de abril de 2010

ah consciência

a coisa mais linda que tive na vida
veio segundos depois de te ver partindo
foi meu corpo se ajeitando em meio ao tempo
preparando-se de antemão
para se reconhecer corpo já ido
mordido partido deglutido corpo

sem rumo sem destino ou rima

a coisa mais linda foi me ver nisso indo
e perceber como as partes se deram pouso
como as partes se juntaram e aos pedaços
assumiram a condição do ser
resto ser
que espera putrefando alguma mão
qualquer que seja
que venha ao corpo
desperto

sim, a mais linda coisa veio depois de ti

veio pelo meu olhar lançado sobre mim
veio na vontade de chorar e não conseguir
veio na vontade de firmar e se ver ruir

assim
como quem morre
porque a vida se revelou sem gosto
como quem morre um pouco
para alterar o rumo do sangue
e fazer serpentina celular
de leucócitos
e hemoglobinas
de peles vertendo pelos
e fazendo em meio-hemorragia

coagulação
processo individual em que se beijam
num mesmo corpo
suas partes já partidas clamando união.

Um comentário:

Thaís Nogueira disse...

Intensidade com tanta clareza. Parece possível misturar confusão com objetividade... Feito o corpo quando pede união da própria matéria... Fico tentando resumir as tantas reações que isso escrito causou. Mas é pra dizer, em fim, que foram grandes reações!

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