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domingo, 4 de abril de 2010

Então me roubo de ti.

A moça sai da cafeteria e é interceptada pelo homem.

ELE - Resolveu sair mais cedo?
ELA - Tenho que fazer uns exames.
ELE - E eu vou ficar sem meu café?
ELA - Mesmo que eu lhe atendesse, você ficaria. O pó acabou.
ELE - Eu queria tanto um café.
ELA - Na padaria sempre tem.
ELE - Eu gosto daqui.
ELA - É. Tem gente que gosta.
ELE - O que você quis dizer?
ELA - Eu quis dizer que tem gente que gosta dessa cafeteria.
ELE - E você não gosta?
ELA - Já gostei. Hoje, especialmente, não.
ELE - O que foi?
ELA - Nada muito inesperado. E você? Alguma surpresa?
ELE - Todos dizendo a mesma coisa.
ELA - Como se não houvesse mais nada diferente acontecendo no mundo.
ELE - Exatamente.
ELA - Nenhum caso sobre nada esquisito?
ELE - Hoje todas as edições estamparam na capa sobre os homens bomba.
ELA - E sobre as mulheres bombas.
ELE - É. As mulheres estão bombando também.
ELA - Não tem muita graça.
ELE - Mas ainda assim, dá para rir.

Riem os dois, sem muito vigor.

ELA - E o que mais?
ELE - Explodiram. E o café acabou.
ELA - A vida não faz sentido algum.
ELE - Não mesmo. A questão é: por que é que não cansamos de buscá-lo?
ELA - Buscar quem?
ELE - O sentido. Por que ainda estamos buscando algum sentido?
ELA - Eu não busco sentido. Busco um emprego. Tem algum para indicar?
ELE - Você foi demitida?
ELA - Ah, sim. Quer dizer. Eu me demiti.
ELE - E por quê? Mas por quê?
ELA - Não sei. Cansei. Sei lá. Foda-se.

Permanecem presos num silêncio tensionado.

ELE - É. Foda-se.
ELA - Foda-se, né?
ELE - É.
ELA - Não faz sentido mesmo. Então que se foda.
ELE - Pois é...
ELA - Pois é o quê?
ELE - Eu ia te chamar para tomar um café.
ELA - Você ia me chamar para te servir um café, é isso?
ELE - Não. Quer dizer. Eu poderia servir o seu. Mas era para bebermos juntos.
ELA - Na mesma xícara?
ELE - Não. Quer dizer. Eu quis dizer...
ELA - Relaxa. Não tem problema. A gente pode beber em xícaras separadas.
ELE - Certo.
ELA - Vamos até a padaria. O café daqui acabou.
ELE - Você já disse. Vamos.

Andam lentos pela calçada rumo à padaria.

ELA - Eu quis dizer que acabou essa história de café aqui. Comigo. Acabou comigo.
ELE - Te fez mal trabalhar aqui?
ELA - Não é isso. É maior. Quero dizer. Acabou. Isso não faz mais parte da minha vida.
ELE - Nada aqui foi importante, é isso?
ELA - É. Exceto você, se é isso o que você estava esperando eu dizer.
ELE - Melhor assim. Nem deu tempo de eu me sentir esquecido.
ELA - O que ficou disso tudo foi o nosso encontro.
ELE - Já é alguma coisa, não?
ELA - Não importa ser.
ELE - Desculpe.
ELA - Desculpe o quê?
ELE - O meu jeito...
ELA - Mas é você. Vai ficar pedindo desculpa por ser você mesmo?
ELE - Às vezes é necessário.
ELA - Não é nada. Pára com isso.
ELE - Vou parar.
ELA - Foda-se...
ELE - O quê?
ELA - Imagina? Se eu for pedir desculpa por cada "foda-se" que eu disser...
ELE - Você vai estar fudida...
ELA - Viu? Eu sou assim. E você desse seu jeito É isso o que nos faz reconhecíveis um ao outro.

Param diante da padaria. Completamente vazia.

ELE - Quer tomar um café comigo?
ELA - Na mesma xícara?
ELE - Não foi isso o que quis dizer...
ELA - Mas foi o que disse.
ELE - Certo. Sim. Então. Quer?
ELA - Quero.
ELE - Boa noite... Boa tarde, quer dizer. Nos vê uma xícara de café?

Olham-se.

ELA - Talvez seja esse o nosso último café.
ELE - O quê?
ELA - Foi o que eu disse.
ELE - Mas por quê?
ELA - Eu não quero mais viver isso aqui.
ELE - Isso aqui, você quer dizer, sou eu?
ELA - Não. Mas sim, ao mesmo tempo. Eu não quero isto aqui. Este lugar.
ELE - Eu não sou um lugar. Eu sou alguém.
ELA - Eu quero partir.
ELE - Para onde?
ELA - Não importa. Quero partir.
ELE - E se eu quiser ir junto...
ELA - Não. Nada disso. Quero ir só.
ELE - E se eu quiser ir junto?...
ELA - Não. Eu quero ir só.
ELE - O que deu em você?
ELA - Deu que eu tô perdida.
ELE - Eu te ajudo.
ELA - Não é questão de ajuda. É questão de sentir isso. Sozinha. De vagar, compreende?
ELE - Não. Sinceramente.
ELA - Tudo bem. Eu também não entendo. Bebe o seu café.
ELE - Ele é nosso.
ELA - Você quem pediu.
ELE - Então bebe você primeiro.
ELA - Não. Bebe você.
ELE - Você. Quero que roube minha namorada.
ELA - Eu não quero uma namorada.
ELE - Leva então ela de mim. Faz com ela o que você quiser.
ELA - Mas eu não quero uma namorada.
ELE - Mas tira ela daqui, por favor.
ELA - De onde?
ELE - Daqui. De mim. Tira ela de mim.
ELA - Pára com isso. O que foi agora?
ELE - Sai de mim por completo. Se for mesmo para sair, que seja por completo.
ELA - Sou eu sua namorada?
ELE - Sim. Eu te peço, então. Sai de mim.
ELA - E se eu quiser ficar?
ELE - Inteira.
ELA - Um pedaço?
ELE - Inteira.
ELA - Então eu me roubo de ti.

Ela bebe o conteúdo da xícara por completo. Apóia a louça sobre o balcão. E o beija a face, partindo veloz.

Porque é difícil esquecer um assalto. Um sequestro. Um roubo. Uma violência.

A partir de personagens propostos por Dominique Arantes.

2 comentários:

Dominique Arantes disse...

lindo lindo!

Mas não se roube de mim jamais. E nem me deixe roubar-me de vc. rsr

amo

Caio Riscado disse...

para mim, é difícil esquecer qualquer coisa. mesmo.

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