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quinta-feira, 4 de março de 2010

O Jogo da Toalha

catástrofe01
Ele não se deu o tempo de pensar. Ela ali sentada sobre o controle da televisão. Ela ali de toalha. Será demais pedir licença para pegar o controle? Seria demais. Ela permaneceu paciente. O nervosismo não era nela. Era ela pura provocação. Vou ficar sentada sobre a toalha até que ele venha e meta a mão. Se eu pedir licença ela vai se importar? Ela vai se fazer de besta ela vai se ferir se magoar? Fico. Duro. Eu estou olhando para a cara dele olha lá e ele nada e ele nada mais uma vez ele nada então vamos ver quem consegue ser nada por mais tempo vamos ver se eu não vou ganhar. Nada. Ela só me olha. Não faz nada. Caralho, isso é provocação. Por que motivo essa mulher fez isso? É muita necessidade! É precisar chamar demais atenção. Caralho! Mostra que tem caralho, então! Mostra! Escrota. Viado. Escrota! É isso que ela é! Viado! Viadinho... Caralho! O que fazer? Eu fico. Eu fico. Vamos lá, nem pisca, olha isso. O jogo com a toalha funcionou ele nem pisca deve estar com medo sabe que sou bem uma torrente teme não me aguentar. Escrota. Teme alguma coisa maior que ele algo capaz de engolir. Ela provoca. Ela provoca. Depois não aguenta! Eu vou ficar. Estou pensando acelerada assim mas tenho certeza que minha cara nem mexe nem faz sombra ou protesto. Eu fico. Ela persiste. Como pode? Não vai mexer? Como consegue? Como ela consegue? Como ele consegue? Não vai mexer. Caralho. Inferno. Eu quero ver a televisão. Eu não quero outro tipo de situação. Aqui em casa hoje não. Aqui em casa hoje vai ser televisão. Televisão. Já foi o arroz. Nem teve feijão. Não quero mais nada. Não quero. Quero sentar no sofá e ver meu programa de TV. Sai daí! Está querendo dizer alguma coisa. Eu sei. Quando começa a mexer a testa assim desse jeito é porque quer falar mas não sabe dizer. Diz, escroto. Diz! Fala alguma coisa, porra. O que você quer? Diz nada. Hein? Nada, diz nada. Vou ficar. Vai ficar aí a noite inteira. Olha que merda, nem mexe. Nem mexe. Caralho! Quer xingar, quer? Quer dizer que eu sou isso e sou aquilo e o que mais? Você é frouxo incapaz de me dizer sequer uma novidade. Então vamos ver como reage, o que vai fazer? Quer ver sua televisão? Quer? Então vem aqui para cima de mim porque pra ligar essa porcaria vai ter que me comer. Não quero. Não vou. É isso o que ela quer. Não vou nem quero nem vai resolver nada. Eu fico. Eu fico. Eu ouso. Levantou a perna. Caralho, não pisca. Nem mexe. Fica. Mexi a perna, escroto. Abri as pernas para você. Faz alguma coisa. Não mexe, não mexi, será que deu para ver. Piscou que eu vi. Piscou que eu vi. Não vai resistir. Não vai. A perna em cima da mesa. Eu tô vendo. O olhar. Onde você vai com esse olhar? Fala alguma coisa! Vai ficar parado? Então eu danço pra você, infeliz. Eu danço! Olha isso! Abusada. Ela tá me fazendo sala! Ela tá me fazendo sala na minha casa na frente da minha televisão. Ingrata! Infeliz! Esposa! Caralho! Eu vejo o ódio preso dentro dele preso dentro da boca. Eu sinto o cheiro. Eu vou ficar parado! Eu fico! Quem sabe ela não se manca e me dá o controle? Agora eu vou te revistar, senhor esposo. Eu vou te revistar! Chegou do trabalho. Comeu a janta que a escrava fez. Eu saí do banho. Eu saí do banho que eu tomei por sua causa e você vai continuar com essa cara de mal amado?! Vai continuar porra nenhuma! Vai ter que me engolir! Caralho! E se eu olhar agora para a sua mala, hein? Você vai dizer alguma coisa? Vai fazer alguma coisa? Vai brochar? E se eu olhar? Cadê a felicidade? Cadê a virilidade a energia? Gastou com a Selma, foi isso? Gastou o rodo limpando a esquina?! Ela tá falando! Diz alguma coisa! Ela tá com a cabeça quente! Ela está falando com ela mesma. Caralho, essa mulher enlouqueceu! E não vem me chamar de louca! Não vem porque motivo eu tenho eu provo pra você que um mais um é dois e não três. Quem é a fulana, diabo? Quem é? Parece com a outra da televisão? Eu fico. Eu fico aqui a noite inteira. Eu não saio. Eu enfio esse controle inteiro dentro de mim. Eu me acabo na sua frente. Eu caso com este pedaço de plástico faremos juntos comunhão de bens. Não vai dizer nada? Anda! Falou! Anda! O que eu faço?! Anda, me dá logo esse controle porque hoje é dia de eliminação. Toma. Jantou direito? Aham. Tava boa a comida? Faltou feijão. Tava dentro do forno. Não vi. Quer que eu esquente? Deixa eu ouvir! Olhar para a televisão. Olhar para ele pelo reflexo da televisão. Olhar para a televisão. Olhar para o reflexo dele na televisão. As imagens distraem a gente. Eu gosto quando escurece a tela. Distraem os problemas. Quando a tela escurece eu vejo o rosto dele. Como pode uma mulher dessa? Vou esperar dar o intervalo e vou dormir. Caralho... Ela pousou as duas mãos sobre o colo. Ela desistiu de mim.

A partir da foto produzida por Dani Ribeiro.

2 comentários:

Dani Ribeiro disse...

"Estou pensando acelerada assim mas tenho certeza que minha cara nem mexe nem faz sombra ou protesto. Eu fico."

Erika Neves disse...

"Piscou que eu vi" | "Anda, me dá logo esse controle porque hoje é dia de eliminação" | Ótimo texto. Tenso. Tensão do não movimento . Ainda assim, cheio de movimento. =D

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