pesquise no blog

terça-feira, 23 de março de 2010

A Bem da Verdade

Dois professores conversam solitários numa sala de aula cujo teto possui uma infiltração que goteja a Lacrimosa do requiem Solti de Mozart. Não há mesa. Entram sorrateiros e sentam-se em carteiras escolares.

Recalcada – O que vamos dizer?
Recalcado – Não vamos autorizar.
Recalcada – Mas é preciso dar um motivo, eles vão desconfiar.
Recalcado – Você leu Deleuze?
Recalcada – Se eu li Deleuze?
Recalcado – É. Você leu?
Recalcada – Mas o quê?
Recalcado – Não importa o quê. Eu quero dizer…
Recalcada – Usar uma referência que eles não tenham, é isso?
Recalcado – Exato.
Recalcada – A gente sempre faz isso.
Recalcado – E sempre deu certo.
Recalcada – Eu acho que eles já começam a desconfiar.
Recalcado – De quê?
Recalcada – Disso entre a gente… Eu digo, dessa postura… Dessa preocupação, a bem da verdade.
Recalcado – Preocupação com o futuro deles. O futuro imediato.
Recalcada – Eu posso falar da lógica temporal em Deleuze.
Recalcado – Você domina?
Recalcada – Também não.
Recalcado – Perfeito.
Recalcada – Mas você não tem pena?
Recalcado – Eu não tenho é tempo para isso.
Recalcada – Seria bom vê-los brilhando, não acha?
Recalcado – É preciso sofrer primeiro. Depois se brilha. Comigo foi assim.
Recalcada – Mas você nem brilhou tanto, né?
Recalcado – O que é uma pena.
Recalcada – Mas é o suor quem brilha. Não o sujeito.
Recalcado - Minha casa tem ar-condicionado.
Recalcada – Na minha também.
Recalcado – Mas diga… Quem começa a fala? Eu ou você?
Recalcada – Às vezes eu acho que não vou aguentar… E lembro sempre daquela fala, “ai de mim”…
Recalcado – Eles te chamam de Medéia pelos corredores, você sabe, não?
Recalcada – Eu ouvi dizer que para eles você faz lembrar Ibsen.
Recalcado – Ibsen é um orgulho.
Recalcada – Medéia também. Sou reverenciada por ninguém mais ninguém menos que Sófocles.
Recalcado – Não se equivoque. Foi Eurípedes.
Recalcada – São muitos nomes para guardar.
Recalcado – E Sêneca, a bem da verdade.
Recalcada – Confesso que nunca li nada do Sêneca. Gosto dos clássicos.
Recalcado – Faz bem.
Recalcada – E você?
Recalcado – É claro que gosto dos clássicos.
Recalcada – Não. Quis dizer. O que você nunca leu?
Recalcado – Eu nunca li nenhuma peça de nenhum aluno que cruzou esta escola.
Recalcada – Não posso dizer o mesmo.
Recalcado – Você já leu alguma?
Recalcada – Apenas uma. A bem da verdade.
Recalcado – Ultraje. E qual foi?
Recalcada – A do menino. Cuja proibição de montagem daremos amanhã.
Recalcado – Então você leu?
Recalcada – Claro.
Recalcado – Como “claro”?
Recalcada – Alguém tem que ceder, não é mesmo? Estamos ficando velhos.
Recalcado – E eu nem li “Entre Quatro Paredes”…
Recalcada – O que foi?!
Recalcado – Eu reli “Entre Quatro Paredes”.
Recalcada – Aplicado você, não?
Recalcado – Na verdade, foi apenas para ter mais força na hora de destruir o projeto da outra aluna.
Recalcada – Você não perde uma oportunidade!
Recalcado – Ou eu faço isso ou seremos devorados!
Recalcada – Até que não ia ser tão ruim…
Recalcado – O que você disse?!
Recalcada – Eu disse que isso seria por demais ruim… A bem da verdade.
Recalcado – Até que a gente se diverte, não?
Recalcada – Sim, nos divertimos um bocado.
Recalcado – E o que você achou?
Recalcada – Eu nunca li nada do Sartre…
Recalcado – Não. Eu quis dizer. O que você achou da peça que o aluno escreveu?
Recalcada – Posso ser sincera.
Recalcado – Uma vez na vida, que seja.
Recalcada – Achei vanguarda.
Recalcado – Como é?!
Recalcada – Achei vanguarda, dignidade pura, ousadia, experimentação. Ele é do tipo iconoclasta.
Recalcado – Então vamos vetar.
Recalcada – Tem certeza?
Recalcado – Enquanto é tempo.
Recalcada – Mas às vezes a gente pode acabar atrapalhando um jovem artista com um destino brilhante.
Recalcado – É melhor que seja assim do que permitir que ele saia por aí dizendo que aprendeu tudo sozinho.
Recalcada – Nós estamos aqui para oferecer contraponto, sim?
Recalcado – Estamos aqui para ser do contra. Ponto.
Recalcada – Não estaríamos, assim, por acaso, quero dizer, talvez, um pouco, recalcados?
Recalcado – Não compreendo a noção de recalque.
Recalcada – É força de expressão. Eu quero dizer. Não estaríamos, por acaso, vetando o menino só porque ele está conseguindo aquilo que não conseguimos ter?
Recalcado – Ele não conseguiu nada ainda. E antes que consiga vai perder.
Recalcada – Eu preciso dizer uma coisa antes de partir. Tenho que dar ração aos gatos.
Recalcado – Diga então esta que, espero, seja sua última verdade.
Recalcada – Na verdade, não é nada meu. É do menino. Ele escreveu assim na peça…
Recalcado – Você decorou?
Recalcada – Achei bonitinho. E minha memória é ótima.
Recalcado – Sua memória é vazia. Pois diga!
Recalcada – Que seja, enfim… Escute… A personagem diz num dado momento: “Com certo tempo a gente se acostuma com o tempo. E passa a exigir menos mudança e mais contemplação. Aprende a ler um livro inteiro sem se aborrecer ou se achar devagar ou rápido demais. Com certo tempo a gente transforma o tempo em templo. E deve a ele toda uma devoção. Todo um respeito. Com certo tempo, o que a gente faz é dar as mãos ao inevitável”.
Recalcado – Você vai atuar nessa montagem?
Recalcada – Quem me dera ao menos uma vez…
Recalcado – A fala é bonitinha mesmo. Mas ainda assim é só poesia.
Recalcada – E qual é o problema?
Recalcado – Eu não me dou bem com poesia.
Recalcada – Mas por quê?
Recalcado – Não há parâmetro na minha vida para uma invencionice dessas.
Recalcada – Recalcado!
Recalcado – Recalcada!
Recalcada – Nos vemos amanhã.
Recalcado – Dá uma lidinha em Deleuze. Acho que concordo com você sobre o fato de nossos alunos já conhecerem toda a obra dele.
Recalcada – Menos a gente.
Recalcado – Menos a gente. Mas isso, ninguém precisa saber.
Recalcada – Mas e se nos descobrirem?
Recalcado – Vai virar dramaturgia. Tudo para estes jovens, no final das contas, vira dramaturgia.
Recalcada – Espero que eu ganhe uma fala no estilo “Medéia”.
Recalcado – Para de sonhar. E não se esqueça de ler o Deleuze.
Recalcada - Pode deixar. Vou baixar um resumo da internet.

Nenhum comentário:

Postar um comentário