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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Outra ficção

Ela se ergue da cadeira:
- Até quando você vai fazer esse jogo comigo?

Os olhos da outra, alvo, dissimulam a tensão em forçado desinteresse:
- Você quer mesmo que eu te responda?

Talvez pelo calor, por ser janeiro, talvez por outros fatores que não faria sentido aqui explicitar, resta um minuto silencioso entre as duas. Apenas um.

A que estava de pé se senta novamente. Estão as duas novamente de frente, uma para a outra. Olham para onde que não uma para outra.

- Eu te fiz uma pergunta.
- Eu não vou responder.
- Então vai continuar a jogar comigo,
- Odeio jogo.
- Eu também.
- Em alguma coisa nós concordamos.
- Você se finge forte, mas eu sei que seus olhos viram para os lados, não por desinteresse, mas sim porque se pudessem fugiriam para sempre daqui, e de si, para não terem que ver essa miséria que você está causando em mim.

Os olhos da outra, alvo, talvez pela primeira vez permanecem mudos e estáticos. Talvez por isso, inédito, comecem a lacrimejar como se uma cebola ante a eles tivesse se apresentado.

- Enquanto você não entender que acabou, tudo o que eu fizer vai parecer jogo. Entendeu?
- Não.
- Quando você vai parar de jogar comigo?
- Talvez quando uma de nós duas tivermos posto um fim, uma na outra, aí teremos algum fim.
- Mais uma vez, você me exige alguma coisa que é incapaz de dar conta!
- E vais gritar?
- Não.

As duas permanecem sentadas. Mas uma avança o caminho:

- Um beijo resolveria tudo isso?
- Te quero inteira.
- Eu disse 01 beijo. Apenas um.
- Então não.
- Então eu vou embora. 
- Não mesmo.
- Então para onde vamos?
- Ficaremos. Aqui. Firmes.
- E infelizes.
- Como sempre fomos.
- Não te dá vontade de ser outra coisa?

Uma silencia ante a pergunta da outra. Elas firmam um pacto silencioso e me olham. Se estão num café, eu não saberia dizer, mas me olham, acima de sua fictícia mesa, me olham como se eu ocupasse uma cabine privilegiada do alto de suas consciências.

Não, minhas caras. Não tenho vontade de que vocês sejam outra coisa porque eu não saberia lhes propor, por agora, nada além disso que vocês são para mim. E para mim, vocês são nada, só um enredo constante e sem costura final, que me volta em repetidas e distintas formas, me pedindo sempre um desfecho não habitual. Não tenho, não sei, não posso, por agora, mas um dia poderei.

Assim, eu espero. Do alto e de dentro da minha jaula onisciente, assim eu espero.

(...)

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