pesquise no blog

domingo, 25 de janeiro de 2015

Às Horas



Um dia eu me esquecerei que é possível sair com as horas. Um dia eu me esquecerei que é possível, junto às horas, passear pelo espaço da vida, sem trapaça, sem tropeço e desespero. Ponderarei o que poderia estar acontecendo para tamanha angústia me confrontar apenas com o fim de tudo. É que eu terei esquecido que é possível ir junto às horas rumo a qualquer infinito. E serei inda mais esquecido: já não lembrarei como se diz "poesia". Direi nomes de poetas, sem saber seus fiéis conselhos. Direi nomes de livros, mas nada eles me significarão. É que estarei lá na frente impossibilitado de lembrar das pequenas horas todas que até aquele dia tinham me levado até lá. Eu me esquecerei de sua companhia, de sua por mim admiração. Amiúde, esquecerei dos passeios que fizemos, dos guarda-chuvas que as horas me emprestaram em dias de inevitável tormento. Esquecerei tudo e, por fim, já não poderei mais viver.
As horas me abraçam agora. Elas querem de novo e em mim se coser. Querem me tirar para dançar (de novo) dentro da sala esvaziada. Elas me vigiam, elas pouco falam, mas somente por elas a ladainha dos versos que de mim sai acaba por refazer a tortura da dúvida interrompida e do projeto apenas só esboçado. Elas estão aqui e me convidam ao dia. Queres pedalar? Querer amar um desconhecido qualquer? Elas me surpreendem e dizem, sem nem bem dizer: já fizeste tudo o que tinha para hoje fazer, portanto, já não é hora (elas riem), de nada fazer?
Uma hora pisca o olho para mim. Elas têm olhos, mas não retinas. Ela pisca, a hora, para mim. E então me convida: e aqui estou eu. Junto a esta pequena hora. Vivendo outra coisa que não a vida lá de fora. Aqui estou eu solenemente abraçado e envolvido em tempo menor. Aqui estou eu possível posto agora ainda seja só uma hora e amanhã de mim ninguém saberá.
Se um dia me esquecerei deste tempo, da mesma forma abrupta como isso vai acontecer, espero também me relembrar. Descobrir na cortina empoeirada da maturidade, um jogo outro que não apenas este de se dizimar: alguma hora, talvez no futuro, alguma hora não tão nova como esta jovem pequena uma hora deste agora, alguma hora velha lá na frente me pegará pela mão e, mesmo sem pernas para dançar, eu dançarei (como agora danço, mesmo que sem sequer ter saído do lugar).


from liliana porter



Ao tempo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário