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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Escambo

Troco este verso por você aqui,
Troco este computador pela sua mão
Troco esta xícara - sem café - por seus braços
Troco o café - sem garrafa - pelas pernas
e o dorso, eu o troco pela garrafa térmica (perdão, acabei de encontrá-la)
ela, recipiente apropriado no qual você, aquele que me faz hoje escambar
poderá guardar o café e amanhecer feliz.

Espera, eu troco mais coisas.
Eu troco os livros, a peça de teatro e a nova dramaturgia
eu troco cada caneta desta casa em férias
pelo desenho preciso da sua pele
e dos pêlos e das sardas e dos buracos negros
que ainda não tive o tempo para conhecer.

Eu troco mais, sempre mais!
Dou o caderno pela dentição
Minhas roupas pelas suas
E se você vier dentro
envio junto por sedex 10
todas as insulinas recém-compradas
Eu troco a ceia de ano novo
eu troco esta garrafa de água minalba
eu troco tudo
tudo
pela possibilidade
neste instante

só neste

de te abraçar e dizer:
tenho vivido mais ou menos
um bocado do que você escreveu
sobre você.

Agora eu pauso.

Um segundinho.

Eu pego tudo de volta,
eu pego tudo de volta, eu tô dizendo!,
Caso não me seja mais permitido
o livre trânsito de nossas partes.
Caso não me seja mais permitido
Estar e não estar
te ter e ter que te esperar
volver e não voltar
rir e chorar.

Eu não quero ser romance juvenil, prosa fácil
Não quero ser conto de fadas, não uso sapatos
E não quero gerar dinheiro,

O que eu quero
é bem mais simples.
É bem mais simples,
não precisa nem de nome
para acontecer.

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