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domingo, 3 de maio de 2009

O último encontro de dois futuros assassinos,

Mais um café, para os dois.


Não cabe contar o número de xícaras rachadas pelo transtorno das bocas mal saciadas. Ele disse ao outro e agora o que vamos fazer. Eu não sei sinceramente eu não penso nem no que vamos eu penso antes disso no que pode haver. O que podemos fazer. Eu não sei. Eu não sei. O que vamos fazer?


O café nessa xícara pequena esfria rápido. É esse o nosso tempo nosso intervalo. O tempo do café no pequeno recipiente ir perdendo a consistência. Você vê, com a gente o tempo é o desse calor que se perde rapidamente e que sem ele sobra apenas o frio. O frio. A indiferença. Não. Isso não, seja sincero, não há indiferença possível.


Por favor, me traz mais um café. Mais um também para mim. Mais dois, então. Dois longos. Tempo. Ele olhou para o outro. O outro o mirou. Eram a mesma coisa a mesma agonia a prenunciar algo incapaz de se prever. E lá embaixo no resto da borra adormecida dos cafés já consumidos a pergunta que não se cala o que vamos fazer. O que você intui, por onde o nosso destino caminha. Por onde poderemos caminhar?


Eu não sei. Isso você não cansa de dizer. Você não me cansa de perguntar. O que vamos fazer. Eu já não quero pensar eu estou aqui a gente se permitiu se encontrar. Entre a gente parece haver um consenso uma tentativa que seja de promover a solução. De alimentar o desespero, você quer dizer. É desespero para você? Eu não respondo. Quem cala consente, eu posso acreditar? Pode, eu concordo. Alimentamos o desespero a café.


Mais outro café, para os dois.


Obrigado. Obrigado. Nós somos seres educados. A gente está aqui, não está? Isso quer dizer que podemos consertar esse buraco que está aumentando e que só faz aumentar. Entre eu e você alguma coisa foi gerada. Foi criada. Eu criei você quer dizer. Eu criei eu junto com você. Não há divisão possível em se tratando de nós dois. Vai esfriar. Não desvia. Mas vai esfriar.


Cara, assim eu vou me matar. Você diz vai me assassinar. Eu disse primeiro que morro eu. Mas não percebe que é o mesmo que se furasse aqui. Puxa o outro a mão do outro e a faz pulsar sobre o calor do peito, gritado. Está sentindo isso aqui? É o que você me faz. É concreto não é poesia não há metáfora é concreto não consigo respirar se você morrer quem se matará serei eu. Ou. Não há ou. Ou se você morrer primeiro com certeza o meu destino você é quem vai administrar.


Café esfriando. Eu não quero mais beber. Eu quero. Eu não quero. Eu quero te beijar. Beija aqui. No peito. Pode ser. Na boca. Onde você quiser o seu beijo eu não consigo conter porque eu não sei se eu não quero impedir essa destruição que é amar você. Estamos nos matando, sabia? Eu sabia.


Esfriou. Eu peço outro. Não, chega. Chega? Chega.


Outro café, para os dois?


Não, moça, obrigado. Eu quero um sim. Não, ele não quer. Eu quero, sou eu quem decide. Não, não é! Seu corpo já não pode agüentar, moça o estômago dele está ruindo de tanto café não traga outro eu te peço eu não posso deixar. EU QUERO O CAFÉ! Não, ele quer me matar! Mas sou eu quem bebe. Mas no seu ir sou eu quem vai. Seu amor é egoísta! Mas é ele que te apraz. Seu amor. Não é? Seu amor. Eu sei. Eu não quero mais café, moça, pode por favor se retirar?


Sem café para os dois.


É o nosso último encontro desculpa dizer eu não posso mais esconder. Eu também sinto não precisa se envergonhar. Não é vergonha. É desespero? É desespero. Eu não sei o que posso fazer. Os dois então ficam um tempo a se olhar. Não há segundo hora ou eternidade capaz de discernir o presente embate. Eles se olhando poderiam ser o nascer e o morrer de uma tarde. Os dois olhos ali se mirando e perfurando camadas. Um vendo a cor escura do olho do outro. Outro vendo quão profunda a clareza do outro olhar podia ser. Os dois se olhando no reflexo de um espelho que ambos sabiam, iria quebrar.


Eles ali se olhando poderiam ser o último encontro de dois futuros assassinos.


E eu não vou dizer o que veio a seguir, pois qualquer fim a esse encontro é pouco possível. Se eles não encontraram nenhuma possibilidade, como posso eu dizer que consigo? Eu não consigo. Uma salada de manga, por favor.


Salada de manga saindo para o senhor.


Obrigado. Deixa que eu pago o café daqueles dois. É isso mesmo. Pode trazer a conta junto com a manga. Eu pagarei os cafés. Eu, e não outro alguém, agi junto nesse crime. Eu pago por ele. Eu o alimento.

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Para Dominique Arantes.

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Um comentário:

Dominique Arantes disse...

Sempre surpreendendo-me com cada palavra sua.

à você só tenho a agradecer, por esse texto e por todos as outras palavras e pensamento, cobertos de poesia.

Parabens.

Fiquei surpresa com a forma que esse tema foi tratado.

Amo-te

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