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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Por um simbólico que dê conta desta vida

Aqui dentro de casa um silêncio sem fim. Abro o bolso da mochila, tiro de dentro um maço de cigarros. Onde está o isqueiro? As coisas todas querem se perder. Nada assim parece tão descarado em se falando do meu fim. Mas eu procuro, eu revolvo os móveis, eu acho junto à caixa de velas semi-usadas uma menor, de fósforos. Risco um deles no meio da sala escura. Acendo o cigarro. As janelas estão fechadas.

Avanço à primeira delas. Surpreendo-me, já é noite. E mais, chove plenamente o céu inteiro. Avanço rumo ao quarto. O som alterna-se feito meu compasso. Eu queria ser música, mãe. Não queria ser carne nem osso. Queria ser compasso verso estrofe e não estorvo. Eu sigo até a janela do meu quarto. Arreganho a sua abertura, queria se possível que se escondessem as janelas por dentro das paredes e me fizesse dormir dentro mas sob este céu que cai. Este céu hoje está caindo.

Eu me encosto nesta parede de tantas vezes ali encostado. Vou fumar mais um cigarro. Mais um cigarro. Eu vou fumar. Ninguém disse não ninguém falou nada apesar de todos já me terem dito. Mas no final das contas sou eu quem digo. Eu fumo, eu me precipito. Eu ouvindo mais uma de todas essas canções fico pensando em qual delas posso eu ser. Eu preciso de um simbólico que me faça valer.

Chove tanto lá fora. Aqui dentro as pernas doem em profundo. Eu fumando construo dia a dia meu próprio túmulo. As pernas gritam primeiro os pés se contorcem em seu silêncio amedrontado. Eu não quero que seja assim e penso Alguém precisa me ajudar alguém precisa me ajudar. Como me tornei assim tão necessitado de ajuda?

Então eu fumo e o íntimo dói profundamente. O íntimo torna-se mais íntimo pois tudo nele fica nublado e se perdem os limites, eu fumando sou meu silêncio ampliado, disfarçado, enlouquecidamente dopado. Não quero mas continuo. Eu preciso de um simbólico não o contrário. Não há realidade que possa ser dita. Para conter a vida eu preciso de uma poesia que me faça nela mesmo ir me extravasar. Por isso chove tanto, eu começo a perceber.

Quem é que chora por mim vendo-me assim ir me perder? São alguns amigos, morridos? É meu avô? Minha avó? Algum passado inimigo ou amigo ou cachorro ou mesmo a lagartixa que matei e enterrei no quintal de minha infância? Seria um Deus me dizendo pela chuva pare menino ainda há tempo, pare, ainda há jeito.

Num impulso então eu me lanço a todo o pranto. Estico o braço direito e na ponta dele uma ponta em fogo queimando. Abaixo a cabeça e me debruço sobre a janela. Não vou sair dali até que tenha se apagado esse fogo que eu mesmo acendo e que agora me dispersa. Esse fogo que eu mesmo acendo e nele me ateio feito fosse pegar fogo alguma brincadeira perversa.

O braço esticado. O céu nele caindo. Eu começo a desenhar o simbólico que eu preciso. O corpo doendo tentando resistir mais um tempo que seja tentando segurar essa juventude que se estupidifica. Eu tento. Eu crio. Eu invento uma rima vendo assim todos chorarem por mim. Não me orgulha. Me desespera. Eu mantenho o braço além da janela e prometo a mim mesmo, dessa vez pelo simbólico, há de apagar essa chama. Hei de secar, molhando o corpo a pranto e não mais a sangue, essa chama que me consome.

O braço ali esticado. O céu nele caindo é o simbólico que sinaliza o imediato. Ergo a face e vejo a chuva tingindo a superfície do meu aniquilador diário. Morre logo cigarro, morre logo cigarro. Eu quero você aqui na minha boca mas sendo você meu veneno meu aniquilário eu não quero eu o quero distante quero ver-te tremendo de frio quero ver-te molhado, por isso, molha, molha céu.

O braço esticado as pernas e os pés revoltados. Como pode o nosso dono ser assim tão retardado? Como pode esse menino querer ser grande se já se reduz em cinzas e num caminho contrário? Algumas restrições a vida lhe impôs, mas então que brilhe na sua imensa capacidade para este simbólico do agora.

Chove tanto lá fora. Eu começo a me convencer, pois esticado o braço com o cigarro, o céu pareceu protestar e sinalizar com mais empenho e força a morte daquilo que me mata, portanto, deixo o braço esticado e é realmente desse simbólico que eu me alimento.

Eu quero ser música, mãe. Você entenderia? Você me entenderia? Se eu te falasse assim um dia, mãe, não quero mais ser filho quero ser melodia. Você me entenderia, mãe? Me entenderia, ainda assim? Eu toco esse piano imaginário eu te faço acreditar que em mim as coisas querem funcionar, mais uma vez.

O braço molhado. Eu ouso manipulá-lo. Aponto o cigarro para o céu. É para lá que ele quer me levar. Mas chorando tanto assim dessa forma, as gotas que eram dor agora reduzem ainda mais esse horror que os pés e pernas parecem temer.

Deixo o braço esticado e o tempo é o da morte. O tempo agora é o que pode haver entre a luz quente e pequena se esvaindo enquanto a chuva vem secando o fogo do cigarro na mão contido. Eu seguro. Preciso aguentar. É desse simbólico que eu preciso para viver.

Tudo passa pela vontade, pela vontade do desejo. Eu não posso deixar de macular este simbólico com essa autonomia que eu preciso conquistar. Por isso, de súbito, eu esmago água de choro e chuva e queimo com a mão qualquer possibilidade de invalidez que possa em mim permitir viver. Não vou deixar. Não vou morrer. Eu apago com a pele esse fogo que quer me queimar. Eu luto de frente. Eu posso aguentar.

Eu olho o céu parando de chover e vejo que a manhã se anuncia. Seria já o céu sorrindo a minha cura? Seria já o céu sorrindo para mim? Pode ser que sim. Isso sou eu também que posso ver. E vejo. E, de pensar, realizo.

Estou curado. O corpo doendo ainda porque nos segundos passados fui injusto. Preciso pagar ainda um pouco desse lapso. Mas se prepare corpo meu. Terás que sorrir enormemente mal se anuncie o próximo poente.
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