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quinta-feira, 21 de maio de 2009

essa margem sombria que escurece o corpo

por favor, pare de gritar
por favor, pare
eu odeio ficar repetindo
eu odeio gritar diante de você
e você fingindo que não me vê

para, a gente escolheu ser tudo assim
eu gosto dele ele gosta de mim
por favor, deixe tudo como está
nós dois aqui pedimos
essa é a configuração final
não queremos despregar

esse corpo já não é teu
esse peso é dele não é teu
esse corpo já não te diz
não escreve para você
essa fome minha é outra
é dentro
você é incapaz de conter
portanto
deixa

deixa que a gente se arruma
sai de perto sai de cima
a gente se dá conta
nós escolhemos assim
nós devemos nos esforçar a seguir
sai de perto
para de gritar, por favor
não grite, por favor

não é espremendo que vamos nos encontrar
eu não vou pegar um bonde nas suas lágrimas
eu não vou pegar

deixe que nós dois somos um agora
nós quisemos tudo isso
o nosso encontro fora previsto horas
antes, não queremos sequer escapar

não sofra
não chore pare por favor de gritar
não é a revolução acontecendo
os helicópteros não voam por mim
nem por ele muito menos por você
tudo continua o mesmo
e isso aqui entre nós dois
não é seu
não pode ser

não grite
solte meu braço
solte! eu disse solte
sai daqui sai do meu encalço
eu não sou você você já não me é
eu não quero saber sai daqui
você me escuta?

alô? que coisa idiota,
você me escuta? você me machuca.
para de insistir meu corpo quebra ele
quebra não vamos aguentar se você insistir
veemente que é por você esse amor
que nos consumiu que é por você
logo precisar logo assim voltar para ti

sai
larga
deixa a minha mão
deixa
porque nós dois podemos te agredir
a qualquer instante
exprimindo em morte
o horror do seu semblante
sai

eu disse, sai
amor, diz para ele sair
diz para ele, sai
sai daqui

e se você insiste, talvez nós dois tenhamos que fazer
talvez seu amor tenha que ser arrancado e trazido ao ar
talvez seja hora de você inteiro oxigenar
e derreter dividir petrificar
vem amor, vamos ensiná-lo
vem amor que toque é esse?

amor, que toque é esse que toque é esse, amor?
não brinca comigo, amor, pare de me encostar
que frio entre os dedos é esse
eu já não posso aguentar
para com isso as coisas já estão complicadas
para
para tira a mão
me deixa sentir sozinho
me deixa sentir
sozinho

amor?

não. não era para ofender
fique comigo eu sou igual você
eu sou frio. sou igualzinho.
fica um segundo. fica,
manso

assim
assim,
me ajude a desvendar o mistério de nossa existência
me ajude a descobrir o porquê de certas coisas
não serem audíveis
você me escuta?

você se afasta
amor, ele se afastou
agora só nós dois somos os dois
sem ninguém ao meio
sem nenhum interlocutor
sobramos os dois, que felicidade
olha para mim, volta para mim
somos nós dois, como éramos mais tarde
fica

fica
assim e olha
ele se afastando,
olha
nós dois aqui, me dê sua mão
me dê sua mão
é fria
eu não ligo
e sua e isso eu preciso
eu não ligo
eu preciso é sua isso
é frio

amor,
é possível morrer falando?

amor,
cada qual do seu jeito
é possível morrer em sono?

amor,
esse frio frisa o que em meu corpo?

esse frio diz o que sobre o seu rosto
assim tão parvo, desculpe, amor
mas tão esquisito,
tão assumidamente torto,

amor?

amar talvez tenha se tornado um suplício
veja, ele desistiu
veja ele se afastou
como chora, meu amor
como o nosso amor magoa o mundo
como as coisas todas hoje choram
e enublecem
choram e escurecem
essa neblina é nossa ou é do mundo?
porque escurece?

eu não quero dormir,
amor, eu estou falando
fica comigo já não é tão frio
porque essa linha negra vem
fechando sobre mim?

amor!

porque tanto eu grito e você
sequer responde diz para mim
porque é que eu grito
e sinto dentro um auto-falante
sinto dentro um eco constante
que me faz pensar

amor, eu morri?
amor, o que é que há?

afasta daqui essa margem sombria que escurece o meu corpo

afasta de mim!
me deixe só!
me deixe!
me deixe!
me deixe!

alguém me ouve?
alguém me ouve?
poeta, reverte o jogo eu te peço poeta reverta o jogo eu quero o sol eu quero nascer de novo reverta não me deixe doendo preso quieto ficando louco poeta, eu te clamo, por favor, poeta, reverta o jogo.

e no meu íntimo, eu posso ouví-lo dizer, estás revertido, desde sempre, desde os princípios.
.

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