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domingo, 17 de outubro de 2010

Romance Perder

Rick - Você dormiu bem?
Elena - Apaguei. Completamente.
Rick - Eu vou fazer um café.
Elena - Eu acordei mais cedo, tomei banho, já comi qualquer coisa.
Rick - Que coisa?
Elena - Alguma coisa.
Rick - Alguma coisa o quê?
Elena - Não importa. Já foi digerido.

Sentam-se junto à mesa.

Rick - Você me disse que não ia mais fazer isso.
Elena - Isso o quê?
Rick - Facilita.
Elena - O quê?
Rick - Você sabe.
Elena - Eu sei.
Rick - E por que fez de novo?
Elena - Talvez porque não soubesse que iria fazer.
Rick - Quer dizer que fugiu ao seu controle?
Elena - Eu não tenho controle.
Rick - A desculpa é ter fugido do seu controle?
Elena - A desculpa é ter fugido de você.
Rick - Como é?!
Elena - É só você… Quem me pode controlar.
Rick - Ah… Certo… Deus…

Levantam-se, ele primeiro ela em seguida. Contemplam a janela do dia recém-nascido.

Elena - Está um dia bonito.
Rick - Feliz aniversário.
Elena - Foi ontem.
Rick - Não tem problema.
Elena - Obrigada.
Rick - Não tem que agradecer.
Elena - Você sempre diz isso.
Rick - É porque não tem que agradecer.
Elena - Eu gosto.
Rick - Você sempre diz isso.
Elena - E às vezes nem gosto tanto assim.
Rick - Assim como?
Elena - Como agora.
Rick - Certo. Eu devo ir. Você vai ficar bem?
Elena - Eu vou ficar.
Rick - Bem… Certo, então. Eu ligo mais tarde.
Elena - Certo.
Rick - Você vai atender?
Elena - Se eu ouvir tocar, eu atendo.
Rick - Então ouça, por favor.
Elena - Vou me esforçar.

Ele sai pela porta da cozinha. Ouve-se ao longe outra porta ser batida.

Elena - Qual é a razão disso? Tenho a sensação de ser uma criatura criada para motivo qualquer. Tenho a sensação de ser experimento, diversão, para um deus divino qualquer que manipula minha cabeça e me faz dizer aquilo que não diria caso fosse eu alguém normal. É estranho. Essa sensação de pertencer a outro e não a si próprio. Agora ele se foi e sabe-se lá quando vai voltar. Sabe-se lá se irá ligar como disse. Sabe-se lá se da próxima vez - e se próxima vez for existir - sabe-se lá se será o mesmo ou simplesmente semelhante a este que acabou de sair. Que estranho tudo isso. É muito estranho. Não temos propósito exceto um prazer momentâneo. Um prazer ralo que se vai no trotar das linhas. O que eu estou dizendo? Isso não é meu. Isso eu nem sei o que é. Que estranho. Cada vez mais eu acho que me perdi nos outros que não sou mas quem gostaria de ser. Me perdi nos romances que li, nas poesias que inventei sem escrever. Me perdi por ser metáfora. Perdi partes inúmeras em metonímias, deixei jorrar sangue via hipérboles e agora resto só, ante a essa janela que ninguém vê, exceto eu e meu esforço e minha crença e minha fé e minha paciência: para criar tudo aquilo que me faz falta.

Hoje faz um dia bonito. Mesmo. Feliz aniversário, para tudo aquilo que nasce agora e não precisa de pernas para andar. Feliz aniversário aos sentimentos, aniversário ao momento, à realização plena dos segundos, aos tormentos passageiros e aos amores autoinflamáveis. Aniversário ao silêncio por entre as coisas e ao… Achei que fosse. Achei mesmo. Gostaria que fosse. Gostaria mesmo que o telefone tocasse. Eu não sei meu número. Mas gostaria mesmo assim que a tarde me invadisse e me tirasse de mim. Eu estou ouvindo, pode tocar. Eu estou te ouvindo, pode bater na porta. Eu vou me abrir.

Um comentário:

Flávia Naves disse...

estupendo....santo anjo do senhor,a dramaturgia de Atravessamentos será linda! Pressentimentos....e olha que eles não costumam mentir...

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