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domingo, 17 de outubro de 2010

Reunião na sala de estar

- Filhos, prestem a devida atenção. Hoje eu queria não ensinar nada a vocês. Eu queria apenas que a partir da minha fala vocês pudussem se olhar, com a devida calma e curiosidade. É que tenho percebido entre vocês uma impossibilidade na fala. Uma vergonha que consome a vossa energia. Eu sei. Vocês saíram daqui, estão vendo? (As crianças desviam o olhar do pai, envergonhadas). Estão vendo? Não, não estão vendo nada além dos próprios olhos. Tudo que o mundo lança a vocês, vocês de súbito se privam de ver. Era sobre isso que eu queria lhes falar hoje. Vocês precisam se atirar, precisam ser precisos no tiro, ainda que venham a errar bastante nesse início.

- Vejam bem, vosso pai vos fala: a sua fala está empolada. Está imprecisa. Não atinge ninguém nem chega à nada. Eu sei que é duro ouvir sobre a própria ineficiência, mas tentem visualizar nisso uma potencial mudança. Uma chance de amadurecer. Eu permito que falem quando tiverem vontade, que cuspam o que quiserem cuspir, mas peço ao menos que cuspam na cara, que gritem todas as letras e pontos. É pedir muito?

(Um dos filhos esparrama-se inteiro pelo chão).

- O que é isso, menino? Não adianta dar show que a mim você não engana.

- Eu estava tentando ser concreto.

- E se jogar assim no chão é ser concreto?!

- É melhor do que ser hiperbólico como o senhor, vocês não acham?

(Todas as outras crianças consentem timidamente e, uma a uma, esticam-se sobre o chão da sala).

(O pai, inerte, pensa: Terei que pisar em meus próprios filhos para sair do lugar. Pois que assim seja).

- Preparem-se, crianças. O recreio acabou.

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