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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Perspectiva da Personagem

É o gráfico, o percurso pelo qual a tal personagem passa. Caminho pela qual se joga. Entre linhas mais finas e outras mais grossas, a perspectiva é o que dá o doce ou o salgado ou o amargo ou o meio ácido dessa equação.

Analisemos, pois, um exemplo:

. A personagem passa uma madrugada inteira sem dormir. No decorrer da noite que vira dia, bebe café, come macarrão e ri em demasia;

. Amanheceu sem dormir, foi à padaria e comeu uma pizza e bebeu uma coca-zero. Já assim de manhã pode parecer que nem tudo está certo. Então pegou o ônibus e dentro dele tomou um iogurte, para fingir saúde e prosperidade;

. Chegou em casa e oscilou. Ficou entre dormir e sagrar os estudos. Esteve confuso. Não fez um nem outro e apenas resvalou, perdido entre o vendaval de coisas que precisam ser ditas e resolvidas e combatidas;

. Tomou seu banho, sob o medo profundo de o chuveiro queimar. Não sabia se temia o morrer pela energia ou o morrer pelo frio que a falta de energia o causaria. Terminou o banho e quis morrer. Mas passou, tanto que agora falo aqui a você;

. Almoço, ônibus, ligações. O sol de ontem parecia não ter vazão. A calça preta, a poeira na contra-mão. As crianças na sala de aula ouviram melhor as suas indicações. Construímos algo mais forte. Sedimentamos algo mais vivo. E então entrei depressa noutro ônibus.

. Mais uma aula. Como o olho, depois de um tempo aberto, assume-se a si mesmo e nos impede de mantê-lo desperto! Ele queria se fechar. Os dois queriam. A amiga ao lado disse, Está vermelho. O que fazer? Continuar, seguir, aos poucos, ir afundando.

. Então acordou. Muitos abraços. Algumas fugidas pelo corredor. Afinal, amigos distintos não podem me ver mais. Acho que os machuco. Ou acho que nossos reagentes não combinam. O que eu faço: eu ando. Não posso parar. Há abraços para dar. Há reuniões a marcar.

. Fome. Como. Come. Amigos, conversas, telefone. Intervalo. A glicemis descontrolando-se para todo o lado, Posso falar com você? Silêncio agitado. Na cabeça o subtexto inalterado: SEMPRE PÔDE! PORQUE SÓ FALOU AGORA?! QUERO TE ODIAR MAS NÃO CONSIGO! NÃO RIA AGORA PORQUE É MUITO SÉRIO O QUE VOCÊ FEZ COMIGO! AH, QUE INFERNO. AGORA VAMOS COMEÇAR FALANDO "OI", MAS E DEPOIS? NAÕ ME PEÇA PARA ESPERAR, PORQUE TÊM SIDO A ÚNICA ESPECIALIZAÇÃO EM TODA A MINHA VIDA. ESPERAR PELA FERIDA CICATRIZAR. MAS EU SOU DIABÉTICO E MINHAS FERIDAS NÃO CICATRIZAM PELO TEMPO. MAS PELO SOPRO, PELO SOCO, PELO TORMENTO! O QUE É QUE HÁ? VOCÊ ENLOUQUECEU? EU TÔ PUTO! VOU TE MORDER! AH!

Nisso, a perspectiva pode ser melhor desenhada. O gráfico oscila e sobe e cai e eu quase desmaio sozinho no meio de minha sala. Difícil controlar os vícios. Decidi vivê-los. Com o devido cuidado de não deixar que aos vícios eu esteja inteiro.

Ah, como é difícil. Quão difícil as coisas parecem ser neste momento. Uma se resolve e a outra explode. Ainda bem, porém, que as coisas se compensam e se implicam.

Meu gráfico só vai para cima porque você caiu, logo embaixo. E eu só caio, talvez, porque cismei em te ajudar. E neste movimento meu de distinção e humanidade, o mundo dá a volta sobre mim e me imobiliza ao pesar sobre meus ombros e cabeça e escombros, o que o mal faz de melhor.
.

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