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domingo, 17 de agosto de 2008

Jogo de Cintura

Encontram-se na lavanderia.

PERDÃO, PODE IR PRIMEIRO. Não, tudo bem, não tenho pressa. NEM EU. MAS VOCÊ TÁ COM MAIS PESO. Imagina, hoje eu não trouxe o cobertor. É. COM O COBERTOR FICA MAIS PESADO. Só trouxe o de sempre. O DE SEMPRE. Desculpa perguntar, mas você mora ali em frente... ISSO. SOU SEU VIZINHO DA FRENTE. Ah, percebi. Você tem um rosto conhecido. ME MUDEI FAZ QUASE UM MÊS. E a minha máquina quebrou deve fazer um mês também. EU MORO SOZINHO. NÃO SEI NEM COZINHAR, IMAGINA LAVAR ROUPA. Também é mais prático. DO QUE COZINHAR? Do que ter que lavar. A LOUÇA? Não. A roupa. AH, SIM. É, É MAIS FÁCIL PAGAR QUE ELES LAVAM PRA VOCÊ. Eles quem? OS DONOS DO ESTABELECIMENTO. Ah, não. São elas que lavam. AS MULHERES? As máquinas, eu quis dizer. EU ACHO INTELIGENTE ESSA COISA DE PAGAR PELO CESTO. É prático. SE TIVESSE QUE SER POR ROUPA, IA VARIAR O PREÇO DE ACORDO COM O TAMANHO DE CADA UM. Era só o que faltava. OS GORDINHOS SEMPRE TERIAM QUE PAGAR MAIS CARO. Isso não é justo. MAS ATÉ QUE SERIA INTERESSANTE. OS GORDOS PAGARIAM MAIS PARA TER SUAS ROUPAS LIMPAS. E NÃO SOBRARIA TANTO DINHEIRO ASSIM PARA COMER. Que absurdo! Isso quer dizer que o dinheiro que sobra aos magros deve ser gasto em comida? NA VERDADE OS MAGROS TÊM MAIS FLEXIBILIDADE PARA GASTAR DE OUTRAS MANEIRAS. Sabe qual é o nome disso? JOGO DE CINTURA? Não. Isso que você está dizendo é um preconceito. AH, NÃO SE IRRITE, SENHORA. VOCÊ É MAGRA. Eu sou o quê? MAGRA. E, LOGO, MAIS RICA. E o senhor é um sem educação que deveria usar o dinheiro proveniente de sua magreza para aprender a ter modos. NÃO SENHORA. Para de me chamar de senhora. EU NÃO QUIS OFENDÊ-LA. PENSEI QUE ESTÁVAMOS CONVERSANDO APENAS. Eu estava conversando, até você começar com esse papo de gordo e magro. NA VERDADE, TUDO COMEÇOU PORQUE A GENTE RESOLVEU TRAZER AS ROUPAS PARA LAVAR AO MESMO TEMPO. E onde estão os reponsáveis por esse estabelecimento? DEVEM ESTAR EM CASA. COMENDO. Não seja idiota, tem que existir alguém por aqui! OPA LÁ, SENHORA. Senhora não! OPA LÁ, LÊLÊ. Alguém por aqui? É VOCÊ MESMA QUEM TEM QUE LAVAR. Eu? Eu pago para lavarem para mim, eu pago, está ouvindo? ESTOU. MAS TENTE FALAR ISSO PARA ESSA MÁQUINA AÍ NA SUA FRENTE. Eu pago, está ouvindo, máquina. PARECE QUE ELA NÃO SE IMPORTOU MUITO COM O SEU DINHEIRO. No mínimo é porque é uma encolhedora de roupas. Eu sei bem quem vocês são, suas máquinas do demônio. Estão todas ansiosas para encolher meu vestido, minha calça e minhas calcinhas. VOCÊ TROUXE CALCINHAS? Trouxe. O senhor trouxe cuecas? NATURALMENTE. Então está tudo certo. CADA UM NA SUA MÁQUINA. Como faz? É só apertar? EU NÃO SEI. ME MUDEI FAZ POUCO TEMPO. O que tem uma coisa a ver com a outra? NO PRESÍDIO EM QUE PASSEI BOA PARTE DA MINHA VIDA NÃO TINHA MÁQUINAS DE LAVAR. Pois não, senhor? ENTÃO EU LAVAVA TUDO NA MÃO. ERA POUCA ROUPA TAMBÉM. Naturalmente. Devo me retirar. O QUE FOI? Eu lembrei que tenho dentista. MAS HOJE É SÁBADO. O meu é particular. Eu pago, está ouvindo? PERFEITAMENTE, SENHORA. A senhora... O senhor, faz favor, se puder, deixa as minhas roupas na porta de minha casa, está certo? TUDO BEM. Tudo bem? COMIGO SIM. MAS O QUE A SENHORA TEM? Eu tenho dentista. HAJA JOGO DE CINTURA. Por que você disse uma coisa dessas? PARA VIVER COM TANTOS COMPROMISSOS. Ah, sim... A VIDA NA CADEIA ERA MAIS SIMPLES. Naturalmente... LÁ NÃO TINHA MÁQUINA, MAS TINHA A HORA DO FUTEBOL. E o que você trouxe para lavar? AH, BOBAGEM. UM LENÇOL SUJO E UMAS ROUPAS MANCHADAS. Manchadas de quê? ESPERO QUE DEPOIS DA LAVAGEM EU NÃO POSSA SABER. Essas máquinas tiram mancha? DIZEM QUE TIRAM TUDO. SANGUE, GOZO E ATÉ PRECONCEITO. Preconceito? Ui... Deve ser o dentista ligando, eu tenho que sair. Obrigada. E boa sorte. E é isso. Eu já vou. Tira sangue. Eu sei. E gozo! Tira preconceito. Bom saber, se um dia precisar. Eu vou. Tô indo. É meu dentista que ligou. Ou mandou mensagem. Sem problemas. Eu vou.

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