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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CAIXA ALTA

Ela ali sentada. Ele chega. Ela lhe dirige a palavra,

- Onde você esteve esse tempo todo?
- Procurando. E você? Sempre aqui?
- Esperando.
- Novidade pra você.
- Você está me ironizando?
- Não. É que às vezes ironia coincide com a verdade.
- No meu caso.
- No seu caso.
- No meu caso.
- Queria alguma coisa? Pra me perguntar onde estive esse tempo todo?
- Queria sim. Ainda quero.
- Posso ajudar?
- É aquela caixa no alto. Você pode pegar?
- É promessa?
- O quê?
- Isso de ficar inerte, esperando?
- É opção. Não tem a ver com religião. É essa caixa alta. A mais alta.
- Não vai me dizer o que é que tem nela?
- Você quer que eu diga ou quer ver?
- Diga.
- Veja você.

Ele puxa uma cadeira e a coloca diante de uma alta estante carregada de livros. No alto, uma caixa empoeirada esbarra no teto. Ele sobe na cadeira, estica ao máximo os braços e puxa a caixa de uma vez só.

- Está aqui a sua caixa.
- É para você.
- Não, eu não posso aceitar.
- Não é para aceitar. É sua. Estava comigo. Mas é sua.
- O que é?
- Você quer que eu diga ou prefere ver?
- Não tem nada aqui que vai me machucar, tem? Algum palhaço que salta quando se abre a tampa?
- Depende do que machuca você.
- Você está amargurada.

Silêncio preenchido com dor. Ele volta,

- Eu não quis dizer...
- Quis sim. E disse. Abre logo a caixa e vai embora.
- Só porque eu fui sincero agora você vai me tratar mal.
- Eu não te trato bem faz tempo.
- Então você assume?
- Quem tem problemas em assumir coisas aqui é você.
- Está certo. Então eu vou embora.
- Não.
- Quer que eu fique?
- Só até abrir a caixa. Está em suas mãos. Vamos.
- E se eu não quiser te dar esse prazer?
- É você quem perde, querido. Eu já não tenho nada.
- E ainda insiste em ficar parada, dentro de casa, como se fosse doente.
- Há doenças que não se revelam, querido. Que consomem por dentro, primeiro. E fica tudo aqui dentro, vazando, como se tudo dentro morresse primeiro para depois te avisar, agora há só você.
- Você tá louca.
- Agora há só você.
- Eu o quê?
- Abra logo. Eu fiz por você.
- O que é?
- Quer mesmo saber?
- Eu perguntei.
- Um pedaço de mim. Pra que você leve e faça o que quiser. Eu não me importo que jogue fora. Só preciso ver você saindo daqui com essa caixa. Cruzando os dois, juntos, aquela porta.
- Um pedaço de você?
- Só um pedaço, não é nada. Não me faz falta. Dou-lhe de bom grado.
- São seus cabelos?
- Não. Estes todos podem ter. Olha quantos fios percorrem essa casa.
- Está mais limpa.
- Não minta. Não precisa tentar me valorizar. Eu não presto.
- Pare com isso.
- Então vá. Junto com a caixa.
- Que pedaço de você?
- Só não me deixe ver você jogando a caixa fora.
- Se o fizer, só jogarei mesmo quando sair.
- Sincero de sua parte.

Silêncio preenchido com dúvidas. Ela prossegue,

- A sinceridade dói, eu sei. Mas passa.
- Abra a caixa.
- Eu? Jamais. Já doeu o suficiente fechá-la. Imagina ter que colocá-la no alto da estante. E conviver com esse cheiro podre de corpo esmaecendo.
- Corpo?
- Eu disse que era um pedaço meu.
- Você está louca.
- Não, estou morrendo.
- Chega!

Ele apóia bruscamente a caixa no chão.

- Não! Eu exijo que fique com você! É sua! Tire ela daqui! Me leve pra passear.
- Não quer você sair daqui?
- Não. Aqui eu vou ficar. Falta pouco. Já posso ouvir o agora só há você.
- Eu não consigo...
- Não se culpe. Do jeito como foi eu sabia que nisso ia resultar.
- A caixa...
- É sua. Pare de balbuciar. É sua, pode levar.
- Um pedaço seu?
- Um pedaço fresco. Que ainda não morreu. Leve logo antes que estrague.
- Qual pedaço seu?
- Meu útero.
- Meu Deus!
- Eis que volta a sua fé. Aproveite e saia daqui, vá passear.
- É mentira!
- Quer que eu diga ou prefere ver?
- Diga que é mentira.
- A verdade às vezes dói. E olha, eu preciso te dizer, esta foi a que mais doeu.
- Por que você fez isso?
- Sem perguntas. Leve a caixa.
- Isso não é meu.
- É sim. Foi por você.
- Não me culpe.
- Não é culpa. É um presente, você não vê?
- Você está louca!

Ele sai e abandona a caixa no chão. A porta entreaberta revela a sua correria rumo a não se sabe onde. Ela resta, na cadeira, contemplando a si mesma, naquele pedaço de carne encaixotada.

- Novidade. Mais um que foge. Mais um.

Pega na mesinha ao lado o telefone. Disca,

- Oi. Lembra de mim? Sim. E você? Que bom. Na verdade, eu estou um pouco mal. De saúde. Queria saber se você podia passar aqui em casa. Ainda hoje. É. Queria dizer umas coisas, sei lá... Uma despedida. Obrigada. Obrigada mesmo.

Desliga. Apóia o telefone na mesa e contempla, novamente, a caixa. As mãos, incoscientemente, repousam sobre o ventre.


- Agora vai ser mais fácil. A sua caixa já está no chão. A porta já está aberta. É só entrar e me tirar daqui. Só entrar e me tirar daqui. Antes que eu estrague, pra sempre.
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