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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ponto.Parágrafo

Duas pessoas diante de uma prateleira de livros.

- Essa é a pior parte da nossa separação. Não acha?
- Nutrimos mais amor pelos nossos livros do que por nós mesmos.
- Eu ainda gosto de mim.
- Eu não.
- Tudo bem. Também não gosto de você.
- Gostou alguma vez?
- Claro que sim.
- Ainda bem. Nem tudo foi ficção.
- Qual o problema com a ficção?
- Realmente, nada.
- Engraçado. Pensei que você gostasse.
- De fingir o que não existe?
- Não, dos nossos livros de ficção.
- Sempre achei que os romances falavam sobre amor.
- Nem todos...
- Eu sei. Você me ensinou. Romance é um gênero.
- Não quer dizer amor.
- Pode ser sobre a morte.
- Não quer dizer que nisso também não tenha amor.
- Eu sei. Isso também você me ensinou.
- Você tá se comportando como um aluno que vai até a casa da professora...
- Você é a professora?
- Ou professor, tanto faz. Você é quem está abismado diante dos livros...
- Que são nossos.
- Mas que mesmo assim não vão nos unir para sempre. Anda.
- Quem começa então?
- Vai você que não gosta de ficção. Temos muitos desse gênero.
- Eu levo esse.
- Eu fico com essa autobiografia.
- Com essa?
- Não começa! Se você for reclamar em cada divisão, é melhor eu ir embora!
- Desculpa. Eu devia ter me preparado melhor.
- É. Devia assim. Além do mais, esse aqui você já leu.
- Não li.
- Então mentiu?
- Menti.
- Você quis me impressionar?
- Eu quis.
- Por favor. Pode levar com você. Eu pego outro.
- Não precisa.
- Precisa sim, esse livro é ótimo.

...

Sentindo o peso das palavras.
Tentativa tentada. Agora resta a tentação
de fazer o ato germinar
e de ver nascer
um novo corpo sob forma de drama.

...

Das palavras

É que quando você as lança
elas sempre acenam abrindo as bocas
e seduzem o estranho
o distante
e então o que você criou
é apenas pequeno num instante
num instante suficientemente curto até que
despreendidas
possam lançar sua sedução
e fazer caber num só ponto final
todo um universo
em plena
relação
com um infinito.
.

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