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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Contramão João

A cidade não coube no olhar.
Deitado sobre o asfalto inda quente
Seu corpo insiste e não entende
Tantas pernas, tantos loucos
A fúria dos passos ao som de apitos
rodeia João que ouve mais que isso:
Olhos quase fechados
A cidade nele escreve seus passos.
Escorre então João avenida
Toca João a pele parda
Na rua preta
de listra amarela
Na faixa-pedestre
sobre a qual hoje
Ele resta.
Esfumaça João avenida
Respira João a distância
De longe, quem o visse
diria: Está morrendo.
Mas talvez, de perto,
dissessem:
É só uma pedra no meio do caminho.
Mas é que dentro,
Dentro João é só sentido.
Pois formiga a pele
da mesma forma como formigam carros
da forma exata como pululam destinos.
Esfumaça a vista,
Da forma como se abrem ruelas
da forma como nascem paredes
e revelam-se as epidemias:
Não se vê.
Mais um piscar,
e João ali pode não mais estar.
Mas fica.
Duro ele permanece retinto.
É só que dentro,
dentro dele o mundo ancora
e ainda pede abrigo.
Então Jorra o mundo João
sem forma prevista
ou som que amenize
a contramão.
Escorre pela cidade João
como tantos outros
o fizeram.
A vista tombada nos prédios vê constelação de estrelas.
É noite na vista de João
E, no entanto, dentro
Inda tudo é tão confusamente lindo.
É que lá no cimo estrelado
Brilham janelas radiantes com placas nas quais
João apenas lê
vende-se um abrigo.
Ele olha ao lado
Vê carro pisca-pisca
Ele olha ao lado
Vê estrela-flash
repentina.
Ele olha ao lado
e vê pés, vê pernas
E nem tanto mais vê vista
Viu tanto já João
Que hoje lhe comove
o doce toque nele dado por uma formiga.
João no chão agoniza,
Enquanto a cidade comemora o seu desejo
de pertencimento,
João hoje não como antes
tem a cidade em si
Pois é rua.
É João hoje avenida imensa e sem fim
caminho livre para todos os lados.









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