como secaste, ela o diz, vendo-o assim tão destituído de forças
como seu verso pifou, como sua poesia foi toda torda, ela o diz, vendo-o resvalar sobre papéis e cigarro
estou embriagado, vá com calma, estou embriagado
ela avança, ele se sente idiotizado
ela sabe como o importunar, avança sobre os saltos, que clichê, ela pousa sobre a mesa um embrulho
são para você, não são cigarros
são cigarros?
são para você.
ele abre o embrulho. dentro do embrulho outro embrulho, dentro outro ainda mais, dentre os outros, mais e mais papéis embrulhados fazendo mistério sobre coisa alguma
eu não entendi, ele a disse
ela confirmou, não era para entender
é uma provacação?
sim, uma provocação.
para quê?
para quem sabe te fazer perceber que acaba se ficando vazio quando se esconde do mundo tudo o que se tem dentro
de alguma coisa específica, você está falando de alguma coisa específica?
de você.
de mim.
de você.
de mim.
sim. de você.
não. não me sinto vazio…
ainda…
nem embrulhado.
estás.
embrulhado?
embrutecido, embriagado, achando ser mistério o que já é comum ao seu lado e você nem vê… porque se embriaga de novo ao se ver assim tão lindo persistindo sobre aquilo que – já sabes – nunca poderá compreender. você se faz de sofrido, ela o diz, você consegue me compreender?
estou embriagado.
sim. bebeu para isso. para se esconder. para se afastar do mundo. você não tem jeito.
eu não quero ter.
vou-me embora.
espere.
ela sai. ele persiste sobre a mesa. tentando não compreender.
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