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sábado, 26 de junho de 2010

Martelo

Arrumou o quarto. Varreu sala cozinha e banheiro. Pensou no meio da manhã recém-nascida, eu nunca trabalhei tanto na minha vida. Motivo: ela que em breve ali estaria. Tinham marcado um encontro na casa dele. Um encontro entre dois seres que só se conheciam em virtualidade. Agora iam os corpos efetivamente se encontrar, correndo o risco de se conectarem ou não. Ou não, pensou. Ou ela não é o que disse, não é o que vi, não traz no corpo nada daquelas fotos. Pensou. E, em seguida, foi até a área de serviço, abriu uma porta e [trecho removido pelo autor].

Ajustou o lençol, o colchão, colocou mais um travesseiro. Era uma cama de solteiro, mas o sexo na cabeça dele não era coisa do lado a lado. É coisa confundida mesmo, onde um é verso do outro e assim permanecem colados, até o calor ser insuportável e, por fim, exigir o descolamento. Acordou veloz, duas horas antes do encontro, nunca se permitiu acordar assim tão cedo. Perdera já provas, exames, médicos e afins, mas é que hoje, quer dizer, naquele dia, era muito especial o que estava por vir.

Tomou o café. Café da manhã equilibrado. Comeu fruta, comeu pão, bebeu cafeína. Estava agindo feito o combinado consigo mesmo. Lembrou da voz dos amigos assaltando-lhe a mente: e se ela for isso, e se isso for golpe, e se o golpe for sujo, e se a sujeira for demais, e se o demais te ferir… Não. Não é possível, que pane é essa que me impede de sair do lugar, tentar algo novo, corpo novo, corpo outro. Eu não quero mais escolher, não quero controle, não quero acertar. Enquanto a água lhe escorria pelas mãos lavando sozinha a louça do café, ele entendeu que estava cansado das pessoas incríveis. Queria estar com alguém que lhe pudesse ser risco, que lhe pudesse abrir ao indizível.

Deu a hora. Marcaram cedo demais. O telefone tocou, era ela. Estou aqui embaixo, como faz para subir. Ele apareceu na janela, do alto do oitavo andar e sinalizou qualquer coisa, descendo imediatamente de escadas para a receber. Ela não podia esperar. Tempo. Olharam-se. Ele disse oi, ela sorrindo respondeu. Desculpa, é que eu desci de escadas. Mas tem elevador, ela perguntou. Sim, é que eu não queria esperar. Ok, disse entrando pela portaria e dispersando no vento algo que pelo computador jamais se poderia ter previsto.

Oitavo andar. Oitavo andar? Oitavo. Legal. Legal o quê? Legal você ter vindo. Ok. Legal… Legal também você me receber. Sim. Sim o quê? Não. Não? Não, enfim, eu tô um pouco nervoso, confesso. Isso nunca aconteceu comigo. Isso o quê? Diz. Isso… De me encontrar com alguém desconhecido. Encontrar? O elevador chegou, entraram os dois. Ela apertou o botão do oitavo andar. E ambos, estáticos, ficaram se olhando pelo espelho do elevador. Olhando-se através do que não eram, mas sentindo-se ali, lado a lado, o cheiro de um invadindo o do outro. E foram.

A porta estava aberta. Ela entrou primeiro. Ele disse fique à vontade. Ela tirou a bolsa e a lançou no chão. Ele fechou a porta. Ela tirou a roupa. Ele ficou sem reação. O que foi? Há algo errrado? Não. Então vem cá. Eu vim até você pra gente ficar, fazer amor, trepar, gozar, conversar, depois fumar um cigarro, sei lá… Relaxa. Isso é normal. Você acha? Não. Mas… Mas o quê? Você não quer? Quero quero, claro que quero. Então…? Tirou a camisa. Ela olhou seu corpo, seu corpo a fez calar. Ele não sabia o que fazer com um pedaço extra de barriga, mas de qualquer forma devolveu a ela o olhar, aproximando-se os dois no meio da sala de estar.

Amaram-se. Do melhor jeito que puderam. Souberam negociar. Na sala era realmente mais espaçoso. Apesar da sensação de estar pequeno o espaço, de estar quente e apertado. Ela falava coisas enquanto estava ali com ele. Coisas que o fazia se envergonhar. Ele a respondia, mas somente quando seu rosto estava colado ao pescoço dela, quase sumindo, quase impossível de se contemplar. E então ela inventou de parar e o olhar nos olhos, dessa ele não pôde escapar. Pensou, então, caralho, é isso mesmo. Vai em frente. Não está bom? Sim, ele achou, que apesar da barriga, apesar do esmalte dela cor laranja solar, tudo estava bom, e continuaram a suar.

Deitaram ao chão, estafados. Lado a lado. Ela dobrou o rosto contra ele e viu o quarto do rapaz também deitado. E perguntou, intrigada: o que é aquilo embaixo da cama? Ele se ergueu, dissimulado e disse, aquilo o quê? Ela repetiu, aquilo embaixo da cama, parece um pedaço de ferro, ele imediatamente completou, meu deus, você achou meu martelo. Ela o mirou. Estava procurando isso há semanas. Seu martelo? Sim. Sei. O que foi? Você estava reforçando a cama antes de eu chegar? Como é? Você estava reforçando a cama pra não correr o risco de quebrar, você me acha gorda? Não. Eu não estava. Mas me acha gorda? Não, o gordo aqui sou eu. Não importa, o abraçou de súbito, dizendo o gostar mesmo assim. Estamos contentes, riram os dois, ela mais alto que ele.

E então ele se ergueu após o abraço e retirou um martelo enferrujado que estava sob a cama. Não haveria mais necessidade de usá-lo.

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