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sábado, 19 de janeiro de 2008

A Limpeza das Horas

02:19. Madrugada. Frio que pouco incomoda, mas que o faz, mesmo assim.
Meu corpo dorme. Encontrando em posições desconfortáveis a morada para o seu sono. O sono de suas partes, visto que umas dormem, enquanto outras resvalam. Meu olhar, inquieto, tenta manter-se desperto. Entretanto, sei que dorme. Aceso, ele dorme. Como um acesso ao mundo através de portas redondas pintadas monocromáticas e 24h. Sou madrugada, eu já o disse. Entretanto, o que faço acordado?, é a pergunta que persiste.

Os olhos demoram a acordar. Sempre o fazem depois de tudo acontecer. E nesse dia não foi diferente. Quando era necessário enxergar, eu não pude. Simplesmente, não consegui, ainda que com meus olhos abertos. E depois tudo passou, como sempre ocorre. Tanto aquilo que eu queria ter visto, bem como o susto que levei exatamente por não tê-lo feito, tudo isso havia partido. Se fora. E o que restou, perdido naqueles instantes do tempo, a eles pertencem. Como os ponteiros cabem ao relógio, não cabe a mais ninguém, exceto ao tempo, a limpeza das horas que ele mesmo consome. Com sua avidez habitual.

11:16. Manhã. De pouco sol, muito pouco sal.
O corpo e seu olhar já acordaram. Quase que ao mesmo tempo, como bem se sabe. Mal se acorda e logo se nota que chegará atrasado. Entretanto, hoje, a manhã que veio trouxe consigo apenas uma pitada de sal, que deve dar conta de todo o dia. É pouco, pouco sal, repito. Por isso, sempre quero jogar-me em meio às ondas do mar que, de contínuo, avançam sobre a terra. Proclamando o seu futuro.


Esse trabalho pertence ao tempo, a saber, o de limpar os restos das horas consumidas. E é um trabalho bem mais pesado do que se pode imaginar ao ver os ponteiros dos relógios do mundo inteiro avançarem sem resistência. Por ser pesado, sabe-se logo, que uma imensa força realiza esta tarefa, a de limpar o que restou aos pedaços após passada uma hora, um segundo sequer. E por ser pesado, como estava afirmando, sabe-se que nem mesmo retirando todas as baterias e pilhas, sabe-se que nem mesmo assim, as horas deixariam de estar limpas.

O que há é uma espécie com transtorno-obsessivo-compulsivo, de limpar-se passado cada momento. Uma espécie, em evolução?, que dentro do próprio ato temporal, a contagem das horas, deseja manter-se limpa para a próxima medição. Há um desejo de que o próximo jamais perceba que as horas futuras são aquelas já passadas. Uma vontade grega no caminho da astúcia humana. O eterno-retorno. Um personagem redondo, sem arestas, sem excessos ou abandonos. O que há, nesses exatos instantes, é uma série de segundos não mais perdidos, não mais passados, mas apenas futuros, reciclados.

01:52. Outra madrugada. Venta muito. Toda natureza morta faz um som boboca.
Escrever sobre outra madrugada é escrever sobre a madrugada anterior. Por sobre ela, pois as condições climáticas são outras. E agora, há tanto vento, que sinto calor por ter me trancado dentro desse cômodo, evitando a revoada dos objetos domésticos, que decidem dançar e cantar quando há brisa. Preciso privá-los dessa liberdade. Pois se começam a fazer barulho, dançando e cantando ao som do vento, silencio-os porque temo o que os vizinhos possam traduzir dessa sinfonia tardia. Tradução cega, diga-se de passagem, visto que ao acordar, ainda mais o vizinho, já se sabe o que ocorre com seus olhos.


Mas, falava sobre as horas, e sobre o seu insuportável senso de limpeza. É um vício tão evidente, o de limpar-se depois de morrer, que o tempo deixa claro que ele passou mas que já está à venda de novo, fazendo ponto, atrás de um ponteiro novo, ereto no começar de outro dia. Mas não me diga que tempo é dinheiro, porque eu ainda não consegui comprar nem mesmo um par de horas novas para nelas agendar meu almoço e minha janta, tão em falta, ultimamente. Não me diga que tempo é dinheiro, porque se isso fosse verdade, aqueles relógios que ficam apitando, desesperadamente apitando, em plena avenida central, não estariam ali. Não por aquele preço.

No entanto, eu afirmo que o tempo passa e junto a ele, a sua mão também, devorando tudo em seu caminho. Hoje, olhando mais de perto as sujeiras das minhas unhas, revendo antigas cicatrizes que ele mesmo eternizou em meu corpo, foi somente hoje que eu estive certo que, a cada dia, ele passa. Como um ferro de passar roupas, mas que serve também para bronzear a pele, para assar a carne do sanduíche. O ferro para secar o livro molhado. Um ferro nem leve nem pesado. Na temperatura ambiente, no tato adequado. Dançando num movimento uniforme, como o do operário em sua rotina angustiante, criada por entre os baques dos materiais cortantes, que ele, habilmente, sem atraso ou cheguei antes!, manipula de forma eficientemente elegante.

Pergunto. Para onde vão as horas passadas? Em que vão se meteram que não as encontro? Não mais me sirvo das recordações de papel. Fotos, jornais, os filmes que nunca vi. São simulacros, vinho ao virtuoso. Nem cheiro adianta, porque ele se perde com o vento. E hoje venta tanto. Quero saber se elas transcendem. Se as horas que passam estão escondidas num lugar especial, aguardando um dia do fim do mundo para voltarem todas contra o tempo opressor. Ansiosas pelo regresso, trazendo consigo pedaços de cada abraço, de cada beijo, de cada filho que ficou. E o meu avô? Por acaso, nesse dia em que o mundo acabaria, voltaria ele, ainda que taciturno, imerso nas horas que um dia o tempo de mim levou?

11:19. Estou agasalhado. Lá fora, há um sol que não via há dias.
A manhã já vai se dissipando e é assim mesmo. Mal acabo de levantar e o dia já corre como se algo o espreitasse, querendo roubar o seu posto, toda a sua intensidade. O dia está correndo. Mas, de quê? Para quê? Eu continuo sem entender. Vou escrevendo sobre algo que, com o passar de si mesmo, pintará tudo com a cor inconfundível da memória. E mais tarde, numa inesperada restauração das lembranças já desgastadas, uma preta mão surgirá, pintando tudo de esquecimento, de passado. E é assim mesmo, por isso escrevo.


Estou atrasado. Não somente para cumprir todos os estudos programados. Também me desloco perdido dentro da vida, por entre seus espaços. Eu poderia mudar minhas horas. Alterar os minutos do relógio digital, voltar um pouco o ponteiro do relógio da cozinha, engordurado de tempo. Eu poderia, por motivos estéticos, não deixar que os segundos do meu relógio de pulso passassem dos dez primeiros. E assim, contar o mundo de dez em dez. Sempre na iminência do fim. Eu poderia alterar tudo isso, pois está tudo em minhas mãos. E dessa maneira questiono a vitalidade de algo intangível, mas que jaz como um morto-vivo sobre nossas costas. Chegar ao local marcado, dez minutos antes do horário em que parti atrasado. O que é o tempo, senão a fôrma incapaz de determinar o minuto exato de passar o café, beijar uma boca e de acionar uma bomba?

23:20. Minha coluna dói. Tudo parado. Às vezes, ouço o barulho de um carro.
É noite. Sabe-se pelo horário que escrevi. Entretanto, sem determiná-lo, saberia somente por estar escuro, que já estamos próximo do dia seguinte? Interessante. Sinto dores corporais que com o passar do tempo, espero eu, se tornarão amenas. Entretanto, há uma dúvida: minhas dores pararão através do tempo, ou em virtude de sua passagem? Limpe-se, limpe-se, maldito! Surgirá um dia em que seus ponteiros, como escravos que se rebelam, atravancarão suas próprias engrenagens torturantes.

Volto a esse texto, vários dias depois de tê-lo iniciado. Continuo sem tempo. Entretanto, dessa vez crio imprevistos para fugir da rotina, autoritária em demasiado. Durmo pouco, mal me alimento. Minha saúde é apenas estar vivo, nesse momento. Dorme-se um pouco mais e o corpo já ressurge moído, não se descansa, não se refaz; cumpre apenas um programado, no qual o sonho é proibido e o sono, trabalho forçado demais. E o que escrevo, muda essa condição? Faz-me voltar às horas, as quais me faltam sem interrupção? Por quê escrevo? Se isso amplia o que eu sou, mas também me reduz diante da forma e do volume que meu corpo tomou. Lutar com o tempo é achar a cura. Contra o tempo, seria loucura?

Anseio um momento futuro. Com riqueza nos detalhes, desenho o espaço, pinto as cores, esboço os rostos, expressões e faço presente a pulsão do imediato. Fecho os olhos em busca de uma poesia invisível e me movo através de alguns segundos que, para mim, só existem realmente se forem hipotéticos. É o tempo que destrói tudo? Ou nós mesmo que nos consumimos aos poucos, vivendo o próximo aniversário e quase nunca o presente minuto? É o tempo? Pois se o aceito como o meio destruidor, intangível que seja, então caminhando inversamente, recebo algo que constrói o que sou. É o que mais importa. Saber-se por inteiro. A todo o momento.

23:25. Sinto saudade. Dos amigos, da família, de algo que não tenho, que me falta.
Outro fim de dia ou de noite. Há vontade de voltar no tempo para colher mais abraços de quem hoje não consigo mais abraçar. Abraços poderiam ser como vestes, que mesmo amassadas pelo tempo, sempre podem ser vestidas. Não me importo que estejam amarrotadas, desejo apenas sentir-me acolhido em meio ao frio. Às vezes, quando preencho-me de ar, sinto que consumo alguns segundos da vida. São saborosos.

Penso em tempo pois penso na morte. E pensar na morte não é ser mórbido nem gótico, quiçá suicida. Penso na morte pois sou generoso. Não creio que ela pense em mim. Se o faz, imagino que seja apenas para planejar o tato com o qual me espremerá. Penso em morte e chego ao tempo. No passar dos segundos a vida se consome. Sem eufemismo, pois a cada segundo morre-se um pouco. Não sei ao certo o que significa viver. Não vivemos. Nós morremos. No tempo presente. Nós morrendo. Numa ação ininterrupta: vivemos morrendo. E é na morte que se vive. Agora e na hora de nossa...

05:24. O relógio está errado. O que importa? É manhã.
Em qual relógio devo acreditar? Será naquele que não conheço ou justamente naquele que ganhei quando criança, e que mesmo hoje, sem pulseira, ainda conservo guardado dentro de um relicário. Em qual relógio acreditar, quando percebo que a língua de um é o inverso do outro, quando percebo que na hora em que um faz uma volta, o outro já fez algumas pausas e espera ansioso, atravancado em seus ponteiro, para mover-se de novo.


Nessa manhã acordei em paz com o mundo. Desprendi-me das horas, despreocupei-me com o relativo atraso e cá estou eu, escrevendo em pleno momento de tomar um banho, ir ao banco ou fazê-lo ao contrário. Qual relógio seguir quando nenhum fornece o tempo dentro do qual procuro me adaptar? Qual tempo aceitar sem que para isso seja precisa subjugar-me as suas artimanhas? É preciso saber contar os segundos como quem conta os grãos de feijão, retirando-os do cesto os claros demais ou manchados, e deixando apenas os pretos mais lindos e saborosos.

01:18. O tempo vem como a morte. E como ela, também passa.
E as pessoas vão. E eu não quero mais falar disso, pois como o tempo, ela aí está. Hoje, encerro essa limpeza. Permito-me sujo ficar, viver assim e sendo assim, respirar. A sujeira que possuo é a do mundo, do seu tempo. As horas que se limpam deixam resquícios para que possamos aprender, apreender e recomeçar a ação no seu devido, outro, momento.

Quando começei a acompanhar a limpeza das horas, tinha mais amigos do que hoje. Alguns se foram junto às cinzas de seus tempos. Outros permanecem. No entanto, eu, continuo aqui, acompanhando o entre uma coisa e outra. Entre um ir e vir e voltando, penso eu, também posso rir. Olhar para essa trágica capacidade de se acostumar e ser-me de novo, como desejo passar. Os anos passaram, os dias também, as horas, sempre as horas... Eis-me aqui, sujo do mundo. Feliz, pois sujo desse mundo.

Esté texto foi escrito durante três anos, apenas para contabilizar o seu tempo de vida. Agora, persistirá na imortalidade virtual. Entrou para a Academia...

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