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sábado, 19 de janeiro de 2008

Café aos pedaços

Encontraram-se na cafeteria. Era tarde. Tarde chuvosa, daquelas em que os pés se molham por inteiro. E a paciência oscila como numa corda bamba, entre se perder por completo ou apenas balançar, estremecer.

Então, ele entrou. A porta da cafeteria era de vidro, lustrado. Ao cruzá-la, ouviu aqueles pequenos sinos que diziam a todos no café que ele estava ali. Que diziam a todos: "olhem, o sacana chegou. Vamos ver se é ele o responsável por aquela moça que já engoliu vários sachês de sal".

E era. Ele era o responsável por aquela lástima que se desprendia sob lágrimas, inúmeras lágrimas, do olhar doce e ferido da moça de mãos trêmulas. Avançou e, agora, sentava-se ao lado dela, digo, a sua frente.

As mãos dela realmente tremiam. Os dedos tentavam afastar deles mesmos os resquícios de sal. Mas não conseguiam. Então ele agiu, esticou também suas mãos sobre a mesa e comprimiu as duas outras, perdidas. Por um segundo ficaram ali, deitadas, ouvindo-se, enquanto o calor entre elas se dispersava através do mármore da mesa.

Ele estava mais justo, naquele dia. Foi então o primeiro a falar. Pensou que ela não teria nada a dizer, que he restava apenas chorar. E ela não pareceu desmenti-lo, pois conservava no gesto uma tristeza delicada de se descrever (exceto talvez para os curiosos que, naquele dia, tomaram mais cafés do que o normal).

Disse: "já não podemos reverter nada. Mas tem uma coisa que eu gostaria de tentar, se não reverter, pelo menos resolver...", silenciou e voltou preenchido de novo ar, "é que me faz mal te ver assim", disse "mesmo", suspeitando que ela fosse duvidar.

Na altura em que estava, na umidade em que se afogava, não poderia discordar que sua presença fosse realmente dolorosa de se ver, de se compartilhar. Por isso sentiu mais dor. Ele voltara ali para dizer, depois de tudo, que incomodava vê-la assim. Pensou, contando segundos como lágrimas, "eu sou assim. Não há outro assim. Assim eu sou e é desse assim que ele não gosta".
Suspirou. Ele apenas observava o tempo secar as gotas que desciam leves, daqueles olhos que diziam tudo sem dizer nada. Ela puxou suas mãos de volta, ele cedeu. E então a bondade reverteu-se em ironia. A imagem que formavam para quem quisesse ver, era a dele, de mãos esticadas, rumo à moça que limpava os olhos e fazia-se bela novamente.

Foi um silêncio em toda a cafeteria. Ela se levantou. Como se tivesse sido esvaziada do resto de amor que parecia, minutos antes, romper-lhe o peito arfante. E ele permaneceu calado, porque não havia nada a dizer. Era ele quem deveria amenizar a dor dela. E ela, no entanto, parecia curada.

Então o garçom veio. Sabe-se lá se foi combinado ou não. Trazendo uma xícara branca dentro da qual café preto fumegante volvia sem parar. Não sabemos também se o garçom sentia pena da moça, ou se estava seduzido pela repentina mudança de sorte da mesma, mas de qualquer forma,
suas mãos cederam e a bandeja com a xícara branca com café preto também cedeu.

Foi o tempo de se virar. E virando contra a mesa, o café foi derramado. Foi no tempo. Ela voltou o olhar. O homem sentado com as barras da calça encharcadas, agora estava paciente. Esperava o café descer-lhe o colo até repousar na sua porção ferida.

Piscou os olhos e lançou sobre a mesa o dinheiro do café. Em seguida, muitos goles foram dados. Uns ou outros tragaram. O garçom, assustado, tentava secar o colo do homem sentado com sua flanela, ao mesmo tempo em que só tinha olhos para aquela.

Os sinos tocaram. A moça partiu. Ele sentado à mesa cujo mármore esfriara, se sentiu estranho. Pediu outro café. E quando ameaçou juntar as moedas sobre a mesa para pagar as bebidas, o mesmo garçom da bandeja que cedera falou:
"fica por conta da casa".

E num gesto comovido e discreto, escondeu dentro do bolso úmido da calça, a última importância que seu ex-amor lhe dera. Era ele ali, um mero servo de amores passados. Um homem solitário debruçado sobre a mesa de uma cafeteria. Quem entrasse, indagaria: "quem será a responsável por aquele rapaz que já tomou xícaras de café?".

E não havia ninguém. Agora, era ele ali e o sol lá fora. Ambos tímidos no amanhecer de outra tarde que adormecia.

Um comentário:

Dominique Arantes disse...

"alguns pedaços que depois de se completarem mudam de posição ...

A dor de quem fica parece maior da de quem vai ...

de quem será a vez de partir ?
como saber se é a nossa vez de lamentar?"

amei amei ...!


saudades!

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