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domingo, 16 de novembro de 2008

Dor Nua

São 03h25min, eu acordei enquanto estava dormindo.

Uma dor me corrói por dentro, me destrói, me desconcentra. Uma dor me gera toda essa impaciência e me lança direto ao abismo de meus atos pensamentos sonhos e contatos. Essa dor me faz ver tudo através de uma crua nitidez. A dor me faz ver o que fiz naquilo que toquei. Eu preciso escrever para dissipar. Eu preciso escrever para fazê-la partir. Mas sempre há de voltar. Mas por enquanto passe dor. Passe para a manhã que se aproxima. Me deixe dormir solto e apenas como estou. Não me faça doer até o amanhecer. Meus olhos pedem silêncio e eu já não posso nada exceto doer.

Ah, como dói tanto esse dente ferido. Esquecido maltratado. Dente esburacado. O que foi que eu fiz? Deixei o tempo roer minhas esperanças. Deixei que tudo se concertasse no passar das horas mas sequer percebi que as coisas também por este passar passavam, morriam, desboroavam sobre e dentro de mim. Ai, dói demais. Eu não saberia dizer. Que estranha sedução essa de escrever a minha imprecisão. Que estranho vício que me faz agora sentir a dor e te descrever. Que estranha essa criatura que de mim se apoderou. Era para eu chorar, querer minha mãe de volta. Mas não! Eu não choro! Eu deixo a dor doer e nisso me endireito.

Eu tenho o direito à dor! Eu posso doer. Isso não me prova somente vivo, mas, sobretudo me prova capaz de morrer! Morrer de desespero. Apanhando o alicate e arrancando os dentes. Lavando a colcha a sangue fresco e pulando a janela sem dentes para sorrir. Sem poder simular a felicidade morta de quem diz morrer feliz. Meu pai do céu está doendo mais!

Parece que por aqui ter disposto essa dor, ela só faz aumentar em mim. Eu cansei. Não posso continuar. Esta dor que está doendo - eu vi em meus sonhos - ela pode me matar. Eu preciso me cuidar. Preciso me entregar aos médicos e pedir pela cura. Fazer a cura em mim durar. Eu preciso que você me ouça e acredite que estou lúcido. Ou não. Enfim, não tire de mim a minha liberdade. Se temo tanto assim os médicos é porque não sabem olhar os olhos a não ser através de espelhos e vidros e lentes e assim distante eles me vêem. Assim, distantes, eles me matam.

Dói! Dói mais e mais! Eu vou agüentar a madrugada tilintando dentro de meus dentes! Eu vou agüentar essa dor que anulou o cansaço da semana recém-morta! Eu já fiz de tudo! Eu já lavei. Já esquentei a face. Já tomei remédios e tentei rezar. Tudo em vão. Nem o sangue é capaz de sair para dizer que algo mudou. Tudo ainda é o mesmo - apenas a dor é mutante. Aumenta e aumentando me consome.

Minha cabeça pensa horrores. Como poderei agüentar? Domingo. Domingo. Preciso de um dentista. Preciso de um dentista. Que me tire o sorriso e me deixe sem essa possibilidade - inviável - a felicidade.

Eu vou fazer um café! Eu devo fazer um café. É o que possuo dentro dessa casa além de meu próprio corpo. E passado os espasmos do corpo manipulado, a dor ainda persiste e talvez um café seja apropriado. Não para adiar meu sono, mas para brindar minha dor com a dignidade mortal que ela impregna em meu rosto.

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