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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

acorde

eu me dizia. me vendo ali deitado e sonhando com as possibilidades que em vida, eu jamais, eu nunca pude, eu não saberia. já era dia e eu ali deitado. o som no quarto ecoando o despertador, dizendo tudo ao contrário, dizendo venha, vamos, acorde, corra, está na hora. estava tudo errado. eu querendo dormir e no entanto eu a mim mesmo insistindo estar vivo, insistindo você precisa ficar acordado.

fazia muito tempo que eu não me sentia tão incapaz de alguma coisa. tão incapaz de começar um movimento e de completá-lo. fazia tempo que eu não me sabia tímido e inexpressivo. que eu não fazia ideia do que era deixar de ser alguém querido. deixar de ser amigo.

e então ele se ergueu. ele se viu em mim confundido. eu olhei seu corpo. eu tossi. eu fiz assim com as mãos. seus olhos se moviam lentos e pediam para o corpo, por favor me dê abrigo. ele riu. pensou nela. eu sei que pensou. ele pensou nela que há tanto já tinha se ido. ele pensando se tinha como se ir de abrupto.

e eu aqui ainda assim pensando que se eu cessar de pensar eu talvez também venha a cessar com a minha noção de eu mesmo. com a minha noção de eu existo. cogito. busco. o corpo range. eu sei. hoje eu queria ser ontem outra vez. não. nem isso. hoje eu queria ficar suspenso. a pele lavada. no varal. tomando sol vento e incapaz de ser enfermidade.

nada. descaso. incapacidade. desejo de sumiço. como pode se criar o que se cria sem se perceber o que é isso. eu perdi o controle. eu me apaixonei pelo tempo. eu fui eu fui e me perdi. eu hoje escrevo essas palavras e a janela a minha frente está lacrada. é melhor que fique assim. eu sou uma mentira.

eu hoje não sou nada. mas por favor, me desacredite. porque eu tenho muita força. eu tenho uma bondade que não se encontra em qualquer lugar. eu tenho alguma coisa que sequer se divide. por isso eu resto hoje aqui dentro de casa quieto e mudo ouvindo um violino de mentira.

eu hoje resto ouvindo o vento. eu resto pegando pesado. sendo quem eu sou. sendo eu mesmo. eu não quero aliviar, eu quero concentrar premer e aceitar o risco. eu não quero dar certo eu quero abrir meu peito e me ver nisso investido. eu quero a sua parceria, mas a sua parceria me cansa. e então eu quero voltar mas tá tudo tomado. os caminhos se perderam.

eu fiquei velho. eu estou atrasado.

longe, no céu, alguma coisa a mim se alumia.

eu uso essa palavra estranho, eu uso isso fora de moda, eu hoje não queria me ser. não queria estar me sendo. mas, deixe despencar. tudo, sem receio. o meu interesse pelo mundo transforma a minha dor e desespero em recreio. em tinta. e nisso,

amanheço amanhã amolecido pelo amor
meu
sobre toda e qualquer tentativa.

eu não existo.
isso que eu tô escrevendo não é minha história.

é apenas música
muita música
que falta ainda
ser tocada
música que falta ser movimento
e quando assim ela for
vento
fúria

horror e tormento

pronto.

serei vingado.
eu me vingando de mim
para não me convencer
do contrário.

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