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sexta-feira, 14 de março de 2008

Remares

Estava tudo amarelado. Parecia passado. Aquele presente, ali, dentro do ônibus, mas voltando, virando memória. Tempo. Meu olhar resvalava, perdia-se entre árvores e feixes de luz que escreviam naquela noite de chuva a minha condição. Estava assim, delicado, com o corpo querendo adormecer, do seu lado. O ônibus seguia e minha atenção voltava-se para o vento, que fazia nas folhas o caminho de seu desejo. A luz dos postes acentuava a perdição das horas.

No vidro fechado o reflexo das mãos seguravam o ferro do ônibus. Sentia-me seguro dentro daquele carro que me levava para além das chuvas e luzes. No reflexo do vidro, minhas mãos encontravam a segurança para em seguida soltarem-se e confundirem-se com a pista molhada da noite que crescia do lado de fora.

No entanto, eu ali era apenas dia, vontade de viver. E olhava para a noite como quem deseja adormecer. Como quem saciou neste dia a vontade de viver. E não como quem ao término do dia lê a vida falecer. Eu queria amar, restar e dormir, para outro dia começar. E nisso, a pista molhada brincava com o reflexo de minhas mãos. Eu tocava o chão na velocidade do ônibus e seguia sentindo a confusão de calçadas ruas e estradas.

Foi então que olhei o céu. E ele negro anunciava chover. E a água que desprendia molhava tudo, afogava as linhas que constroem a cidade. Já não sabia o que era a rua na qual o ônibus remava. Ondas surgiam e morriam para recriarem-se e morrerem de novo. A escuridão da noite também no chão se refazia. Era o reflexo do céu que as ruas assumiam. Tudo escuro, exceto meu coração.

Então o ônibus parou. Talvez não fosse barco o suficiente para seguir. Ergui o olhar e o que vi adiante não era o que esperava ver. Havia um mar no meio do asfalto. O asfalto, aliás, era o próprio mar. Negro mar da indecisão. Seguir ou retornar, avançar e correr o risco de parar, de morrer ao se afogar?

Meu coração iluminava. Eu queria seguir e era essa a minha estrada: a do se molhar. Do meu pranto de felicidade eu queria nascer e ser. Por isso o ônibus seguiu e buscando outros caminhos remava adiante, sempre adiante. E tudo era noite. E o amarelo das luzes tornava o mundo envelhecido. Eu vivia num quadro antigo. E a minha história eu precisava contar aos filhos que - um dia eu terei? Eu precisava ter meus filhos, nem que fosse por essa noite para que, em seguida, voltassem para a segurança de meus sonhos.

Então muitos homens cujos filhos passavam fome desceram do ônibus, mas eu duro, fiquei. Precisava provar do gosto da complicação. Eu preciso, neste momento, de outro sabor que me faça mover, que me faça ser em mim o que ainda não pude. Por isso fiquei e no risco de me afogar segurei-me como fosse isso o que houvesse de melhor naquela noite. Não pensei em calor, em estar seguro nem conjunto. Desejei o perigo e a iminência de um fim, pelo desejo pleno de experimentar.

E então meu ponto chegou. E eu desci do ônibus e vi que não era a minha rua. Na minha rua o chão era firme e naquela em que desci, ele volteava em formas d’água. E tudo escuro, exceto pela luz amarela que brilhava em algum lugar. Pus-me a correr e nadando respirava profundo e seguia seguro. Não quis me afogar, nem pude morrer. Nesse caminho o desejo de vida é tão grande que não se pode falecer. A vida, em alguns momentos, é a nossa própria condenação. Avancei resoluto e encontrei no topo da ladeira de casa a luz amarela que eu vi ser meu coração.

Remares

Um comentário:

Caio disse...

...sei tb como é dificil pá, navegar, navegar...
=*

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