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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Sobre um teatro possível

Talvez nunca tenha feito isso: escrever sobre o teatro, sobre este teatro, de agora, que se debate diante de sua forma. Teatro hoje que se lamenta e sem fuga ou salvação, encena a própria dor esperando que nela alguém jogue sua atenção.

O que pensei sobre teatro foi sobre Eurípides. Sua Medéia. Sobre Édipo, algumas comédias, outras histórias. Foi escrever sobre grandes dramaturgos, admirar excessivamente um Ibsen, um Brecht e vários Shakespeare. O que pensei sobre teatro até hoje foi apenas uma maneira de adaptar suas potencialidades à pobreza do seu sem-espaço hoje.

O que aprendi até este momento, sobretudo, foi como criar tensões. Sufocar uma cena numa caixa que impressiona, pois não se sabe se a falta de ar é intencional ou acidental. Criar tensões tem a ver com não ver, não dizer e nem se ser. Por isso, muito aprendi a olhar o que quiseram uns dizer, mas talvez pouco tenha exercitado a compreensão do meu compreender. O como vejo, com quais cores? Que texturas e odores? Que corpos que se movendo dirão a minha história? A minha visão dessa História?

Talvez devesse ceder a todas as repentinas intuições que amorfam esse teatro que latente em mim quer se mostrar. Talvez devesse olhar mesmo para aquele parquinho num canto da grande cidade do Rio de Janeiro e ali, sob as cores do cotidiano, fazer fantasia.

Talvez devesse acreditar menos em grandes teorias, deixar de pensar na crueldade, deixar de falar em teatralidade. Talvez, mesmo, o que precise ser feito beira o observar, o investigar. Olhar para vida como quem não se perde dela. E olhando-a, dela retirar algo que diga sua vitalidade, sua convulsão, sua falta de liberdade.

Observar aquilo que nos falta e em cena fazer voar. Este teatro que pode ser utópico, científico, acadêmico, profissional, amador ou radical, tanto faz. Pois se é tanto, façamos de toda e qualquer forma. Nenhum rótulo importa quando somos crianças e queremos aquilo que queremos.

Voltemos a ser crianças e diante disso, é com ingênua dor que escrevo sobre o que me atormenta. E me atormenta, apenas, por se tratar de algo que é vivo e que por sua vitalidade precisa existir. Cada vez mais percebo o teatro como uma ponte, mutante, de várias vias, de mim até vocês e de vocês até mins.

Cada vez mais, acredito num teatro que seja possível, pois em mim requisita existência. Sem preceitos, sem receitas. Teatro é ação e recria-se a todo instante, ainda que seja no espaço-tempo-das-memórias-áureas-de-algo-que-não-é-o-mesmo-algo-hoje, pois hoje é o eterno presente passado constante adiante.

Neste momento, eu tenho farpas em meu corpo. Quero dizê-las, do meu modo, a vocês. Uno-me, então, a outro corpo. E juntos, faremos do teatro a nossa necessidade de sentir-se vivo, pleno e dito isso, também incompleto.

Diogo Liberano

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